Memria de minhas putas tristes
Gabriel Garcia Mrquez

Orelhas do livro

 apenas na aparncia que esta inesperada e surpreendente histria de amor entre um ancio e uma ninfeta se insere numa tradio da qual fazem parte o Vladimir Nabokov de Lolita, o Thomas Mann de Marte em Veneza e o Yasunari Kawabata de A casa das belas adormecidas, ainda que este ltimo tenha sido citado na epgrafe de Memria de minhas putas tristes e fornecido o mote a partir do qual o escritor colombiano Gabriel Garcia Mrquez ps fim a um perodo de dez anos longe dos romances.
Um leitor mais atento vai encontrar aqui as principais referncias e motivaes desse hino de louvor  vida e, por extenso, ao amor, j que um no existe sem o outro no imaginrio do Prmio Nobel de Literatura de 1982. Apesar de parecer estranho, uma dessas Ichaves est no conto de fadas A bela adormecida, que, no por acaso,  citado em um momento crucial dessa narrativa ambientada em uma cidade colombiana imaginria, numa poca que de to remota parece imemorial.
A semelhana com a famosa fbula do escritor francs Charles Perrault fica mais explcita na adolescente, que aqui surge dormindo, como se estivesse  espera do seu prncipe encantado. Mas ela tambm est presente no velho jornalista, narrador dessas memrias, que vai viver cerca de cem anos de solido embotado e embrutecido, escrevendo crnicas e resenhas maantes para um jornal provinciano, dando aulas de gramtica para alunos to sem horizontes quanto ele, e, acima de tudo, perambulando de bordel em bordel, dormindo com mulheres descartveis.
S quando acorda ao lado da ainda pura ninfeta Delgadina  que este personagem vai ganhar a humanidade que lhe faltou enquanto fugia do amor como se tivesse atrs de si um dos generais que se revezaram no poder da mtica Colmbia de Gabriel Garcia Mrquez. O medo do amor  to superlativo que o anti-heri dessas memrias vai preterir conviver com a mais terrvel ameaa para o macho latino: o fantasma da impotncia. E enquanto tivesse foras, resistiria ao poder do amor.
Parte desse medo se deve aos ridculos a que o amor nos expe, aqui elevado  ltima potncia em cenas como a que o ancio anda numa bicicleta cantando "com ares do grande Caruso", ou aquela em que destri um quarto de bordel. por mais que lidemos com esse sentimento como se fosse um palet dois nmeros acima do nosso,apenas ele e to somente ele, o amor, nos faz humanos, como desde tempos imemoriais a arte vem tentando provar. Seja nos boleros mais sentimentais, que ressoam nas paixes evocadas pelos grandes mestres da fico, ou em obras-primas como esta.

"No devia fazer nada de mau gosto, advertiu a mulher da pousada ao ancio Eguchi. No devia colocar o dedo na boca da mulher adormecida nem tentar nada parecido." Yasunari Kawabata,

A casa das belas adormecidas

1 o ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponvel. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentaes obscenas, mas ela no acreditava na pureza de meus princpios. Tambm a moral  uma questo de tempo, dizia com um sorriso maligno, voc vai ver.
Era um pouco mais nova que eu, e no sabia dela fazia tantos anos que podia muito bem estar morta. Mas no primeiro toque reconheci a voz no telefone e disparei sem prembulos:
  hoje.
Ela suspirou: Ai, meu sbio triste, voc desaparece vinte anos e volta s para pedir o impossvel. Recobrou em seguida o domnio de sua arte e me ofereceu meia dzia de opes deleitveis, mas com um seno: eram todas usadas. Insisti que no, que tinha de ser donzela e para aquela noite. Ela perguntou alarmada: Mas o que  que voc est querendo provar a si mesmo? Nada, respondi, machucado onde mais doa, sei muito bem o que posso e o que no posso. Ela disse impassvel que os sbios sabem de tudo, mas no tudo: Virgens sobrando neste mundo s os do seu signo, dos nascidos em agosto. Por que no encomendou com mais tempo? A inspirao no avisa, respondi. Mas talvez espere, disse ela, sempre mais sabichona que qualquer homem, e me pediu nem que fossem dois dias para revirar o mercado a fundo. Eu repliquei a srio que numa questo dessas, e na minha idade, cada hora  um ano. Ento no tem jeito, disse ela sem o menor fiapo de dvida, mas no importa, assim  mais emocionante, merda, deixa que eu telefono em uma hora.
No preciso nem dizer, porque d para reparar a lguas: sou feio, tmido e anacrnico. Mas  fora de no querer ser assim consegui simular exatamente o contrrio. At o sol de hoje, em que resolvo contar como sou por minha livre e espontnea vontade, nem que seja s para alvio da minha conscincia. Comecei com o telefonema inslito a Rosa Cabarcas, porque, visto de hoje, aquele foi o incio de uma nova vida, e numa idade em que a maioria dos mortais est morta.
Vivo numa casa colonial na calada de sol do parque de San Nicolas, onde passei todos os dias da minha vida sem mulher nem fortuna, onde viveram e morreram meus pais, e onde me propus morrer s, na mesma cama em que nasci e num dia que desejo longnquo e sem dor. Meu pai comprou a casa num leilo pblico no final do sculo XIX, alugou o andar de baixo para lojas de luxo de um consrcio de italianos e reservou-se este segundo andar para ser feliz com a filha de um deles, Florina de Dios Cargamantos, intrprete notvel de Mozart, poliglota e garibaldina, e a mulher mais formosa e de melhor talento que jamais houve na cidade: minha me.
O espao da casa  amplo e luminoso, com arcos de estuque e pisos axadrezados de mosaicos florentinos, e quatro portas envidraadas sobre uma sacada corrida onde minha me sentava-se nas noites de maro para cantar rias de amor com suas primas italianas. Dali se v o parque de San Nicolas com a catedral e a esttua de Cristvo Colombo, e mais alm os armazns do cais fluvial e o vasto horizonte do rio grande da Magdalena a vinte lguas de seu esturio. A nica coisa ingrata na casa  que o sol vai mudando de janelas no transcurso do dia, e  preciso fechar todas elas para tratar de dormir a sesta na penumbra ardente. Quando fiquei sozinho, aos meus trinta e dois anos, mudei-me para a que tinha sido a alcova de meus pais, abri uma porta de passagem para a biblioteca e para viver comecei a vender o que estava sobrando, e que terminou sendo quase tudo, exceto os livros e a pianola de rolos.
Durante quarenta anos fui o domador de telegramas do El Dirio de La Paz, tarefa que consistia em reconstruir e completar em prosa indgena as notcias do mundo, que agarrvamos em pleno vo pelo espao sideral atravs das ondas curtas ou do cdigo Morse. Hoje me sustento, mal ou bem, com minha aposentadoria daquele ofcio extinto; me sustento menos com a de professor de gramtica castelhana e latim, quase nada com a crnica dominical que escrevi sem esmorecimento durante mais de meio sculo, e nada em absoluto com as resenhas de msica e teatro que me publicam de favor nas muitas vezes em que intrpretes notveis passam por aqui. Nunca fiz nada diferente de escrever, mas no tenho vocao nem virtude de narrador, ignoro por completo as leis da composio dramtica, e se embarquei nessa misso  porque confio na luz do muito que li pela vida afora. Dito s claras e s secas, sou da raa sem mritos nem brilho, que no teria nada a legar aos seus sobreviventes se no fossem os fatos que me proponho a narrar do jeito que conseguir nesta memria do meu grande amor.
No dia de meus noventa anos havia recordado, como sempre, s cinco da manh. Por ser sexta-feira, meu compromisso nico era escrever a crnica que  publicada aos domingos no El Dirio de La Paz. Os sintomas do amanhecer tinham sido perfeitos para no ser feliz: me doam os ossos desde a madrugada, meu rabo ardia, e havia troves de tormenta depois de trs meses de seca. Tomei banho enquanto passava o caf, bebi uma caneca adoada com mel de abelhas e acompanhada por duas broas de farinha de mandioca, e vesti o macaco de brim de ficar em casa.
O tema da crnica daquele dia,  claro, eram os meus noventa anos. Nunca pensei na idade como se pensa numa goteira no teto que indica a quantidade de vida que vai nos restando. Era muito menino quando ouvi dizer que se uma pessoa morre os piolhos incubados no couro cabeludo escapam apavorados pelos travesseiros, para vergonha da famlia. Isso me impressionou tanto que tosei o coco para ir  escola, e at hoje lavo os escassos fiapos que me restam com sabo medicinal de cinza e ervas milagrosas. Quer dizer, me digo agora, que desde muito menino tive mais bem formado o sentido do pudor social que o da morte.
Fazia meses que tinha previsto que minha crnica de aniversrio no seria o mesmo e martelado lamento pelos anos idos, mas o contrrio: uma glorificao da velhice. Comecei por me perguntar quando tomei conscincia de ser velho, e acho que foi pouco antes daquele dia. Aos quarenta e dois anos havia acudido ao mdico por causa de uma dor nas costas que me estorvava para respirar. Ele no deu importncia:  uma dor natural na sua idade, falou.
 Ento  disse eu , o que no  natural  a minha idade.
O mdico me deu um sorriso de lstima. Vejo que o senhor  um filsofo, disse ele. Foi a primeira vez que pensei na minha idade em termos de velhice, mas no tardei a esquecer o assunto. E me acostumei a despertar cada dia com uma dor diferente que ia mudando de lugar e forma,  medida que passavam os anos. s vezes parecia ser uma garrotada da morte e no dia seguinte se esfumava. Nessa poca ouvi dizer que o primeiro sintoma da velhice  quando a gente comea a se parecer com o prprio pai. Devo estar condenado  juventude eterna, pensei ento, porque meu perfil equino no se parecer jamais ao caribenho cru que era meu pai, nem ao romano imperial de minha me. A verdade  que as primeiras mudanas so to lentas que mal se notam, e a gente continua se vendo por dentro como sempre foi, mas de fora os outros reparam.
Na quinta dcada havia comeado a imaginar o que era a velhice quando notei os primeiros ocos da memria. Revirava a casa buscando meus culos at descobrir que os estava usando, ou entrava com eles no chuveiro, ou punha os de leitura sem tirar os de ver de longe. Um dia tomei duas vezes o caf da manh porque me esqueci da primeira, e aprendi a reconhecer o alarme de meus amigos quando no se atreviam a me lembrar que estava contando a mesma histria que havia contado na semana anterior. Naquele tempo tinha na memria uma lista de rostos conhecidos e outra com os nomes de cada um, mas no momento de cumprimentar no conseguia que as caras coincidissem com os nomes.
Minha idade sexual no me preocupou nunca, porque meus poderes no dependiam tanto de mim como delas, e quando querem elas sabem o como e o porqu. Hoje em dia dou risada dos rapazes de oitenta que consultam o mdico assustados por causa desses sobressaltos, sem saber que nos noventa so piores, mas j no importam: so os
riscos de estar vivo. Em compensao,  um triunfo da vida que a memria dos velhos se perca para as coisas que no so essenciais, mas raras vezes falhe para as que de verdade nos interessam. Ccero ilustrou isso de uma penada: No h ancio que esquea onde escondeu seu tesouro, com essas reflexes, e tantas outras, havia terminado o primeiro rascunho da crnica quando o sol de agosto explodiu entre as amendoeiras do parque e o barco fluvial do correio, atrasado uma semana por causa da seca, entrou bramando pelo canal do porto. Pensei: A esto chegando os meus noventa anos. Jamais saberei por qu, nem pretendo, mas foi ao conjuro daquela evocao arrasadora que decidi telefonar para Rosa Cabarcas pedindo ajuda para honrar meu aniversrio com uma noite libertina. 
Fazia anos que estava na santa paz com meu corpo, dedicado  releitura diria dos meus clssicos e a meus programas privados de msica culta, mas o desejo daquele dia foi to urgente que me pareceu um recado de Deus. Depois do telefonema no consegui continuar escrevendo. 
Pendurei a rede num canto da biblioteca onde o sol no bate pela manh, e me estendi com o peito oprimido pela ansiedade da espera.
Eu havia sido um menino mimado com uma me de dons mltiplos, aniquilada pela tsica aos cinquenta anos, e com um pai formalista de quem jamais se conheceu erro algum, e que amanheceu morto em sua cama de vivo no dia em que foi assinado o tratado da Neerlndia, que ps trmino  guerra dos Mil Dias e a tantas guerras civis do sculo anterior. A paz mudou a cidade num sentido que no se previu nem se queria. 
Uma multido de mulheres livres enriqueceu at o delrio os velhos bares da rua Ancha, que foi depois o calado Abello e agora  o passeio Coln, nesta cidade da minha alma to apreciada pelos prprios e por alheios pela boa ndole da sua gente e a pureza de sua luz.
Nunca me deitei com mulher alguma sem pagar, e as poucas que no eram do ofcio convenci pela razo ou pela fora que recebessem o dinheiro nem que fosse para jogar no lixo. L pelos meus vinte anos comecei a fazer um registro com o nome, a idade, o lugar, e um breve recordatrio das circunstncias e do estilo. At os cinqenta anos eram quinhentas e catorze mulheres com as quais eu havia estado pelo menos uma vez. Interrompi a lista quando o corpo j no dava mais para tantas e podia continuar as contas sem precisar de papel. Tinha minha tica prpria. Nunca participei em farras de grupo nem em contubrnios pblicos, nem compartilhei segredos nem contei uma s aventura do corpo ou da alma,pois desde jovem me dei conta de que nenhuma  impune.
A nica relao estranha foi a que mantive durante anos com a fiel Damiana. Era quase uma menina, mais para forte e xucra, de palavras breves e terminantes, que se movia descala para no me estorvar enquanto eu escrevia. Recordo que eu estava lendo La lozana andaluza na rede do corredor, e a vi por acaso inclinada no tanque com uma saia to curta que deixava a descoberto suas coxas suculentas. Presa de uma febre irresistvel levantei-a por trs, baixei suas prendas at os joelhos e avancei pelos fundos. Ai, senhor, disse ela, com um queixume lgubre, isso no foi feito para entrar, mas para sair. Um tremor profundo percorreu seu corpo, mas se manteve firme. Humilhado por t-la humilhado quis pagar a ela o dobro do que custavam as mais caras daquele tempo, mas no aceitou nem um tosto, e tive que aumentar seu salrio com o clculo de uma montada por ms, sempre enquanto lavava roupa e sempre pela retaguarda.
Algumas vezes pensei que aquelas contas de camas seriam uma boa base para uma lista das misrias da minha vida extraviada, e o ttulo me caiu do cu: Memria de minhas putas tristes. Minha vida pblica, em compensao, carecia de interesse: rfo de pai e me,solteiro sem porvir, jornalista medocre quatro vezes finalista nos Jogos Florais de Cartagena de ndias e favorito dos caricaturistas por causa da minha feira exemplar. Quer dizer: uma vida perdida que havia comeado mal desde a tarde em que minha me me levou pela mo aos dezenove anos para ver se conseguia publicar no El Dirio de La Paz uma reportagem da vida escolar que eu havia escrito na aula de castelhano e retrica. Foi publicada no domingo com um prembulo esperanado do diretor. Passados os anos, quando soube que minha me tinha pago por aquela publicao e pelas sete seguintes, j era tarde para me envergonhar, pois minha crnica semanal voava com asas prprias, e alm do mais eu era o domador de telegramas e crtico de msica.
Desde que consegui meu diploma de bacharel com grau de excelncia comecei a dar aulas de castelhano e latim em trs colgios pblicos ao mesmo tempo. Fui um mau professor, sem formao, sem vocao nem piedade alguma por aqueles pobres meninos que s iam  escola por ser o jeito mais fcil de escapar da tirania dos pais. A nica coisa que pude fazer por eles foi mant-los debaixo do terror de minha rgua de madeira para que pelo menos levassem a lembrana do meu poema favorito: Estes, Fbio,  dor, que vs agora, campos de solido, desolados outeiros, foram noutro tempo a Itlica famosa. S depois de velho fiquei sabendo, e por casualidade, do apelido malvado que os alunos me puseram pelas costas: Professor Desolado Outeiro.
Isso foi tudo que a vida me deu e no fiz nada para conseguir mais. Almoava sozinho entre uma aula e outra, e s seis da tarde chegava na redao do jornal para caar os sinais do espao sideral. s onze da noite, quando fechava a edio, comeava minha vida real. Dormia no Bairro Chins duas ou trs vezes por semana, e com to variadas companhias, que em duas ocasies fui coroado como cliente do ano. Depois do jantar no vizinho caf Roma escolhia um bordel qualquer ao acaso e entrava s escondidas pela porta dos fundos. Fazia isso por gosto, mas acabou sendo parte do meu ofcio graas  ligeireza de lngua dos grandes falastres da poltica, que prestavam conta de seus segredos de Estado s amantes de uma noite, sem pensar que eram ouvidos pela opinio pblica atravs dos tabiques de papelo. 
Foi desse jeito enfim que descobri que meu celibato inconsolvel era atribudo a uma pederastia noturna que se saciava com meninos rfos da rua do Crime. Tive a sorte de esquecer esse ponto, entre outras boas razes porque tambm conheci o que se dizia bem de mim e apreciei isso em sua medida e em seu valor.
Nunca tive grandes amigos, e os poucos que chegaram perto disso esto em Nova York. Quer dizer: mortos, pois  para l que eu acho que vo as almas penadas para no digerir a verdade de sua vida passada. Desde que me aposentei tenho pouco a fazer, alm de levar meus papis ao jornal nas tardes de sexta-feira, ou ento outras tarefas de pequena monta: concertos no Belas-Artes, exposies de pintura no Centro Artstico, do qual sou scio fundador, uma ou outra conferncia cvica na Sociedade de Melhorias Pblicas, ou algum acontecimento grande como a temporada da divina Fbregas no Teatro Apoio. Quando jovem ia aos sales de cinema sem teto, onde tanto podamos ser surpreendidos por um e se lunar como por uma pneumonia dupla por c. i de algum aguaceiro desnorteado. Mais, porm, que os filmes me interessavam as pssaras da noite que se deitavam pelo preo da entrada ou davam de graa ou fiado. Pois o cinema no faz meu gnero. O culto obsceno de Shirley Temple foi a gota que transbordou o copo.
Minhas nicas viagens foram quatro aos Jogos Florais de Cartagena de ndias, antes dos meus trinta anos, e uma noite ruim na lancha a motor, convidado por Sacramento Montiel para a inaugurao de um de seus bordis em Santa Marta. Quanto  minha vida domstica, sou de comer pouco e de gostos fceis. Quando Damiana ficou velha no se tornou a cozinhar em casa, e minha nica refeio regular desde ento foi a fritada de batatas no caf Roma depois do fechamento do jornal.
Assim, na vspera de meus noventa anos fiquei sem almoar e no pude me concentrar na leitura  espera de notcias de Rosa Cabarcas. As cigarras apitam at arrebentar no calor das duas da tarde, e as do sol pelas janelas abertas me foraram a trs vezes o lugar da rede. Sempre achei que pelos dias do meu aniversrio estava o dia mais quente no ano, e tinha aprendido a suportar isso, mas o humor daquele dia no deu para tanto. s quatro tentei me apaziguar com as seis sutes para cello solo de Johann Sebastian Bach, na verso definitiva de dom Pablo Casais. Acho que  o que de mais sbio existe em toda a msica, mas em vez de me apaziguar como de costume me deixaram num estado da pior prostrao. Adormeci com a segunda, que me parece um pouco malemolente, e no sonho misturei o queixume do cello com o de um barco triste que se foi. Quase no mesmo instante o telefone me despertou, e a voz enferrujada de Rosa Cabarcas me devolveu  vida. Voc tem uma sorte do demnio, disse ela.
Encontrei uma franguinha melhor do que voc queria, mas tem um porm: ela tem uns catorze anos. Eu no me importo em trocar fraldas, disse a ela em tom de burla e sem entender seus motivos. No  por voc, disse ela, mas quem vai cumprir por mim os trs anos de cadeia?
Ningum, e ela menos ainda,  claro. Fazia sua colheita entre as menores de idade que se exibiam em seu armazm, e que ela iniciava e espremia at passarem a vida pior, a de putas diplomadas no bordel histrico da Negra Eufemia. Nunca tinha pago uma nica multa, porque seu quintal era a arcdia da autoridade local, do governador at o ltimo bedel da prefeitura, e no era imaginvel que  dona daquilo tudo faltassem poderes para
delinquir a seu bel-prazer. Assim, seus escrpulos de ltima hora s tinham como justificativa poder levar vantagem com seus favores: quanto mais punveis, mais caros. A questo se arranjou com um aumento de dois pesos na tarifa dos servios, e combinamos que s dez da noite eu estaria em sua casa com cinco pesos em dinheiro, e adiantados. Nem um minuto antes, pois a menina tinha que dar de comer aos irmos menores e pr na cama sua me entrevada pelo reumatismo. Faltavam quatro horas.  medida que passavam, meu corao ia se enchendo de uma espuma cida que me atrapalhava para respirar. Fiz um esforo estril para pastorear o tempo com os afazeres da roupa. Nada novo,  claro, pois at Damiana diz que eu me visto com o ritual de um bispo. E me cortei com a navalha barbeira, tive que esperar que a gua do chuveiro aquecida pelo sol no encanamento refrescasse, e o simples esforo de me secar com a toalha me fez suar de novo. Eu me vesti de acordo com a ventura da noite: o terno de linho branco, a camisa de listas azuis de colarinho acartolinado com goma, a gravata de seda chinesa, as botinas remoadas com parafina e o relgio de ouro de lei com a corrente abotoada na casa da lapela. No final dobrei para dentro as barras das calas para que ningum notasse que com a idade eu diminura quatro dedos.
Tenho fama de unha-de-fome porque ningum consegue imaginar que eu seja pobre do jeito que sou se moro onde moro, e a verdade  que uma noite como aquela estava muito acima dos meus recursos. Do cofre das economias disfarado debaixo da cama tirei dois pesos para o aluguel do quarto, quatro para a dona, trs para a menina e cinco de reserva para meu jantar e outros gastos midos. Ou seja, os catorze pesos que o jornal me paga por um ms de crnicas dominicais. Escondi o dinheiro num bolso secreto do cinturo e me perfumei com o borrifador de gua de Florida de Lanman & Kemp-Barclay & Co. Ento senti a fisgada do pnico e ao primeiro badalar das oito desci tateando as escadas nas trevas,suando de medo, e sa para a noite radiante da minha celebrao. Havia refrescado. Grupos de homens solitrios discutiam futebol aos berros no passeio Coln, entre os txis parados em fila no meio da rua. Uma banda de metais tocava uma valsa lnguida debaixo da alameda de flamboyants floridos. Uma das putinhas pobres que caam clientes mais pobres ainda na rua dos Notrios me pediu o cigarro de sempre e respondi a mesma coisa de sempre: Hoje est fazendo trinta e trs anos, dois meses e dezessete dias que parei de fumar. Ao passar na frente de O Arame de Ouro me olhei nas vitrines iluminadas e no me vi como me sentia, porm mais velho e mais mal vestido.
Pouco antes das dez abordei um txi e pedi ao chofer que me levasse ao Cemitrio Universal, para que ele no ficasse sabendo aonde na verdade eu estava indo. Ele me olhou divertido pelo espelho, e disse: No me assuste desse jeito, dom Sbio, Oxal Deus me mantenha vivo assim que nem o senhor. Descemos juntos na frente do cemitrio porque ele no tinha dinheiro mido e tivemos que trocar no La Tumba, um botequim indigente onde os bebadinhos da madrugada choram seus mortos. Quando acertamos a conta, o motorista me disse a srio: Tome cuidado, senhor, que a casa de Rosa Cabarcas j no  nem sombra do que foi. No pude fazer outra coisa a no ser agradecer, convencido como todo mundo de que para os choferes do passeio Coln no havia nenhum segredo debaixo do cu.
Fui adentrando um bairro de pobres que no tinha nada a ver com o que conheci nos meus tempos. Eram as mesmas ruas amplas de areias quentes, com casas de portas abertas, paredes de tbuas speras, tetos de sap e ptios de cascalho. Mas sua gente havia perdido o sossego. Na maioria das casas havia as farras de sexta-feira cujos bumbos e pratos repercutiam nas entranhas. Qualquer um podia entrar por cinqenta centavos na festa que mais gostasse, mas tambm podia pegar carona e entrar de contrabando. Eu caminhava ansioso de que a terra me engolisse dentro da minha fatiota de ver Deus, mas ningum prestou ateno em mim, a no ser um mulato esqulido que cochilava sentado no porto de uma casa da vizinhana.
 Salve, doutor!  me gritou de corao , feliz trepada!
Que mais eu podia fazer a no ser agradecer? Tive que me deter trs vezes para recobrar o flego antes de alcanar a ltima ladeira. Dali vi a enorme lua de cobre que se erguia no horizonte, e uma urgncia imprevista do ventre me fez temer pelo meu destino, mas passou ao largo. No final da rua, onde o bairro se transformava num bosque de rvores frutferas, entrei no armazm de Rosa Cabarcas.
No parecia a mesma. Havia sido a cafetina mais discreta e por isso mesmo a mais conhecida. Uma mulher corpulenta que queramos coroar sargenta dos bombeiros, tanto 
pela corpulncia como pela eficcia para apagar os candeeiros da parquia. Mas a solido tinha diminudo seu corpo, havia acanelado sua pele e aveludado sua voz com tanto engenho que parecia uma menina velha. De antes, s lhe restavam os dentes perfeitos, com um que tinha mandado forrar de ouro por coqueteria. Guardava luto fechado pelo marido morto depois de cinqenta anos de vida comum, e o aumentou com uma espcie de boina negra pela morte do filho nico que a ajudava em suas vilanias. S lhe restavam vivos os olhos difanos e cruis, e atravs deles me dei conta de que ela no tinha mudado de ndole.
O armazm tinha uma lmpada macilenta no teto e quase nada para vender nas prateleiras, que nem mesmo cumpriam a funo de servir de disfarce para um negcio que 
todo mundo conhecia mas ningum reconhecia. Rosa Cabarcas estava despachando um cliente quando entrei na ponta dos ps. No sei se me desconheceu de verdade ou se havia fingido para manter as aparncias. Sentei-me no banquinho de espera enquanto ela se desocupava e tentei reconstru-la na memria tal como ela havia sido. Mais de duas vezes, nos tempos em que ns dois estvamos inteiros, tambm ela havia me livrado de meus sustos. Creio que leu meu pensamento, porque virou-se para mim e me examinou com uma intensidade alarmante. O tempo no passa em voc, suspirou com tristeza. Eu quis agrad-la: Em voc, passa, mas para melhor. De verdade, disse ela, at ressuscitou um pouco em voc a cara de cavalo morto. Vai ver  porque mudei de pasto, respondi com picardia. Ela se animou. Pelo que lembro, voc tinha um mastro de caravela. Como  que ele tem se portado? Escapei pela tangente: A nica coisa diferente desde que nos vimos pela ltima vez  que s vezes meu rabo arde. Seu diagnstico foi imediato: Falta de uso. S tenho rabo para o que Deus fez, disse eu, mas na verdade ardia fazia tempo, e sempre na lua cheia. Rosa remexeu sua gaveta de alfaiate e destapou uma latinha de uma pomada verde que cheirava a linimento de arnica. Diga  menina que unte seu rabo com o dedinho, assim, disse ela movendo o dedo indicador com uma eloquncia procaz. Repliquei que graas a Deus eu ainda era capaz de me defender sem unguentos selvagens. Ela caoou: Ai, professor, perdoe e me deixe continuar viva. E foi cuidar de seus assuntos.
A menina estava no quarto desde as dez, me disse; era bela, limpa e bem-educada, mas estava morrendo de medo, porque uma amiga dela que escapou com um estivador de Gayra em duas horas tinha sangrado at o fim. Mas, admitiu Rosa, isso d para entender, porque o pessoal de Gayra tem fama de fazer at as mulas cantarem. E retomou o fio: Pobrezinha, alm de tudo tem de trabalhar o dia inteiro pregando botes numa fbrica. No me pareceu que fosse um ofcio to duro. Isso  o que os homens acham, replicou ela, mas  pior que picar pedras. Alm disso, me confessou que tinha dado  menina uma beberagem de valeriana com brometo, e que ela estava dormindo. Tive medo que a compaixo fosse outra artimanha para aumentar o preo, mas no, disse ela, minha palavra  de ouro. com  regras fixas: cada coisa paga por separado, em dinheiro vivo e por antecipado. E assim foi. Segui-a atravs do ptio, enternecido pela murchido da sua pele, e pela maneira com que mal caminhava, com as pernas inchadas dentro das meias de algodo ordinrio. 
A lua cheia estava chegando ao centro do cu e o mundo parecia submerso em guas verdes. Perto do armazm havia um cobertio de palma para as farras da administrao  pblica, com numerosos tamboretes de couro e redes dependuradas nas vigas. Atrs do quintal, onde comeava o bosque de rvores frutferas, havia uma galeria de seis alcovas de adobe sem emboar, com janelas de tela para os pernilongos. A nica ocupada estava  meia-luz, e Tona Ia Negra cantava no rdio uma cano de amores  malogrados. Rosa Cabarcas tomou flego: O bolero  a vida. Eu estava de acordo, mas at hoje no me atrevi a escrever isso. Ela empurrou a porta, entrou um instante e tornou a sair. Continua dormindo, disse. Voc faria bem em deix-la descansar tudo o que o corpo pedir, sua noite  mais longa que a dela. Eu estava atordoado: O que voc acha que eu devo fazer? 
Voc  que sabe, disse ela com uma placidez fora de lugar, no   toa que  sbio. Deu meia-volta e me deixou sozinho com o terror. No havia escapatria. Entrei no quarto com o corao desvairado e vi a menina adormecida, nua e desamparada na enorme cama de aluguel, tal e como sua me a tinha parido. Jazia meio de lado, de cara para a porta, iluminada pelo lustre com uma luz intensa que no perdoava detalhe algum. Sentei-me para contempl-la da beira da cama com um feitio dos cinco sentidos. Era morena e morna. Tinha sido submetida a um regime de higiene e embelezamento que no descuidou nem os plos incipientes de seu pbis. Haviam cacheado seus cabelos e tinha nas unhas das mos e dos ps um esmalte natural, mas a pele cor de melao parecia spera e maltratada. Os seios recm-nascidos ainda pareciam de menino, mas viam-se urgidos por uma energia secreta a ponto de explodir. O melhor de seu corpo eram os ps grandes de passos sigilosos com dedos longos e sensveis como se fossem de outras mos. Estava ensopada num suor fosforescente apesar do ventilador, e o calor se tornava insuportvel  medida que a noite avanava. 

Era impossvel imaginar como seria a cara lambuzada de cores, a espessa crosta de p-de-arroz com dois remendos de carmim nas bochechas, as pestanas postias, as sobrancelhas
e plpebras que pareciam pintadas com tio, e os lbios aumentados com um verniz de chocolate. Mas nem os trapos nem as tinturas eram suficientes para dissimular seu gnio: o nariz altivo, as sobrancelhas encontradas, os lbios intensos. Pensei: Um meigo touro de briga.
s onze fui aos meus assuntos de rotina no banheiro, onde estava sua roupa de pobre dobrada sobre uma cadeira com um esmero de rica: um vestido de algodozinho barato com borboletas estampadas, umas calcinhas amarelas de chita e umas sandlias de corda tranada. Em cima da roupa havia uma pulseira de mianga e uma correntinha muito fina com a medalha da Virgem. Na beira da pia, uma bolsinha de mo com um batom, um estojo de ruge, uma chave e umas moedas soltas. Tudo to barato e envilecido pelo uso que no consegui imaginar ningum to pobre como ela.
Me despi e dispus as peas de roupa do melhor jeito que pude no cabide para no estropiar a seda da camisa e o linho bem-passado. Urinei na privada sentado e como me ensinou, desde menino, Florina de Dios, para que no molhasse a beira do vaso, e ainda, modstia  parte, com um jorro imediato e contnuo de potro bravio. Antes de sair cheguei perto do espelho da pia. O cavalo que me olhou do outro lado no estava morto mas lgubre, e tinha uma papada de Papa, as plpebras inchadas, e mirradas as crinas que haviam sido minha melena de msico.
 Merda  eu disse a ele , o que  que eu posso fazer se voc no gosta de mim?
Tratando de no despert-la, sentei-me nu na cama com os olhos j acostumados aos enganos de luz avermelhada, e revisei-a palmo a palmo. Deslizei a ponta do dedo indicador ao longo de sua nuca empapada e ela inteira estremeceu por dentro como um acorde de harpa, virou-se para mim com um grunhido e me envolveu no clima de seu hlito cido. Apertei seu nariz com o polegar e o indicador, e ela se sacudiu, afastou a cabea e me deu as costas sem despertar.
Tentei separar suas pernas com meu joelho por causa de uma tentao imprevista. Nas duas primeiras tentativas ela se ops com as coxas tensas. Cantei em seu ouvido:
A cama de Delgadina de anjos est rodeada. Relaxou um pouco. Uma corrente clida subiu pelas minhas veias, e meu lento animal aposentado despertou de seu longo sono.
Delgadina, minha alma, supliquei ansioso. Delgadina. Lanou um gemido lgubre, escapou de minhas coxas, me deu as costas e enroscou-se como um caracol em sua concha.
A poo de valeriana deve ser to eficaz para mim como para ela, porque no aconteceu nada, nem com ela nem com ningum. Mas no me importei. Perguntei-me de que adiantaria despert-la, humilhado e triste do jeito que me sentia, e frio que nem uma pescada amarela.
Ntidas, inelutveis, soaram ento as badaladas das doze da noite, e comeou a madrugada do 29 de agosto, dia do Martrio de So Joo Batista. Algum chorava aos gritos na rua e ningum dava confiana.Rezei por ele, se fizesse falta, e tambm por mim, em ao de graas pelos benefcios recebidos: Que ningum se engane, no, pensando que o que espera haver de durar mais do que durou o que viu. A menina gemeu em sonhos, e tambm rezei por ela: Pois eis que tudo haver de passar dessa maneira. Depois apaguei o rdio e a luz para dormir.
Acordei de madrugada sem me lembrar onde estava. A menina continuava dormindo de costas para mim em posio fetal. Tive a sensao indefinida de que havia sentido a maneira como ela se levantava na escurido e de ter ouvido a descarga do banheiro, mas bem que podia ter sido um sonho. Foi algo novo para mim. Ignorava as manhas da seduo e sempre tinha escolhido ao acaso as noivas de uma noite, mais pelo preo que pelos encantos, e fazamos amores sem amor, meio vestidos na maior parte das vezes e sempre na escurido para imaginar-nos melhores. Naquela noite descobri o prazer inverossmil de contemplar, sem as angstias do desejo e os estorvos do pudor, o corpo de uma mulher adormecida. Levantei-me s cinco, inquieto porque minha crnica dominical deveria estar na mesa da redao antes do meio-dia. Fiz minha deposio pontual, ainda com os ardores da lua cheia, e quando soltei a corrente da gua senti que meus rancores do passado foram-se embora pelos canos. 
Quando voltei fresco e vestido ao dormitrio, a menina dormia de barriga para cima na luz conciliadora do amanhecer, atravessada lado a lado na cama, com os braos abertos em cruz e dona absoluta da sua virgindade. Que Deus a conserve, disse a ela. Todo dinheiro que me sobrava, o dela e o meu, pus no  travesseiro, e me despedi para sempre e nunca mais com um beijo em sua testa. A casa, como todo bordel ao amanhecer, era a coisa mais parecida com o paraso. Sa  pelo porto do pomar para no encontrar ningum. Debaixo do sol abrasador da rua comecei a sentir o peso dos meus noventa anos, e a contar minuto a minuto os minutos  das noites que me faltavam para morrer.
Escrevo esta memria no pouco que resta da biblioteca que foi de meus pais, e cujas estantes esto a ponto de desmoronar graas ao trabalho paciente dos cupins. Afinal, para o que me falta fazer neste mundo, me bastariam os dicionrios de todo tipo, com as duas primeiras sries dos Episdios Nacionales de dom Benito Prez Galds, e com A montanha mgica, que me ensinou a entender os humores de minha me desnaturalizados pela tsica.
 diferena dos outros mveis, e de mim mesmo, a mesona em que escrevo parece melhor de sade com o passar do tempo, porque foi fabricada com madeiras nobres por meu av paterno, que era carpinteiro de navios. Mesmo quando no preciso escrever, todas as manhs arrumo a mesa com o rigor ocioso que me fez perder tantos amores. Ao alcance da mo tenho meus livros cmplices: os dois tomos do Primer Diccionario Ilustrado da Real Academia, de 1903; o Tesoro de Ia Lengua Castellana o Espanola de dom Sebastin de Covarrubias; a gramtica de dom Andrs Bello, para o caso de surgir alguma dvida semntica, como convm; o novidadeiro Diccionario ideolgico de dom Jlio Casares, em especial por causa de seus antnimos e seus sinnimos; o Vocabolario delia Lngua Italiana 
de Nicola Zingarelli, para favorecer-me com o idioma de minha me, que aprendi no bero, e o dicionrio de latim, que por ser a me das duas outras considero como sendo minha lngua natal.
 esquerda da escrivaninha mantenho sempre as cinco folhas de papel de linho tamanho ofcio para minha crnica dominical, e o chifre com p que prefiro  moderna almofadinha de mata-borro.  direita esto o tinteiro e o porta-caneta de madeira de lei com a pena de bico de ouro, pois ainda manuscrevo com a letra romntica que me ensinou Florina de Dios 
para que eu no me desse  caligrafia oficial de seu esposo, que foi notrio pblico e contador juramentado at seu ltimo suspiro. Faz tempo que nos impuseram no jornal a ordem de escrever  mquina para melhor clculo do texto no chumbo da linotipo e maior
acerto na hora de armar a pgina, mas nunca me dei a este mau hbito. Continuei escrevendo  mo e transcrevendo na mquina com um agudo picotar de galinha, graas ao privilgio ingrato de ser o empregado mais antigo. Hoje, aposentado mas no vencido, gozo do privilgio sacro de escrever em casa, com o telefone fora do gancho para que ningum me perturbe, e sem censor que espreite o que escrevo por cima de meu ombro.
Vivo sem ces nem pssaros nem pessoal de servio, a no ser a fiel Damiana que me tirou dos apuros menos imaginados, e continua vindo uma vez por semana para o que houver de ser feito, mesmo como est, curta de vista e de entendimento. Minha me em seu leito de morte me suplicou que me casasse jovem com mulher branca, que tivssemos pelo menos trs filhos, e entre eles uma menina com seu nome, que tinha sido o de sua me e o de sua av. Estive pendente desta splica, mas tinha uma idia to flexvel da juventude que nunca achei que era demasiado tarde. At o meio-dia caloroso em que me enganei de porta na casa que os Palomares de Castro tinham em Pradomar, e surpreendi nua Ximena Ortiz, a menor de suas filhas, que fazia a sesta na alcova contgua. Estava deitada de costas para a porta e virou-se para me olhar por cima do ombro com um gesto to rpido que no me deu tempo de escapar. Ai!, perdo, consegui dizer com a alma na boca. Ela sorriu, virou-se para mim com um ar de gazela e mostrou-se a mim de corpo inteiro. 
Cada palmo do quarto parecia saturado de sua intimidade. No estava em pura carne, pois tinha na orelha uma flor venenosa de ptalas alaranjadas, como a Olmpia de Manet, e tambm usava uma escrava de ouro no pulso direito e uma gargantilha de prolas midas. Nunca imaginei que pudesse ver algo mais perturbador no que me faltasse de vida, e hoje posso assegurar que tinha razo. Fechei a porta de um golpe, envergonhado com a minha imprudncia, e com a determinao de esquec-la. Mas Ximena Ortiz no deixou. Por meio de amigas em comum me mandava recados, epstolas provocadoras, ameaas brutais, enquanto espalhava voz de que estvamos loucos de amor um pelo outro sem que tivssemos trocado uma palavra sequer. Foi impossvel resistir. Tinha uns olhos de gata fujona, um corpo to provocador com roupa ou sem, e uma cabeleira frondosa de ouro alvoroado e cuja emanao de mulher me fazia chorar de raiva no travesseiro. Sabia que nunca chegaria a ser amor, mas a atrao satnica que exercia sobre mim era to ardorosa que tentava me aliviar com tudo que era dama da vida de olhos verdes que encontrava no meu caminho. Nunca consegui sufocar o fogo de sua lembrana na cama de Pradomar, e assim entreguei-lhe minhas armas, com pedido formal de mo, troca de anis e anncio de boda antes de Pentecostes.
A notcia explodiu com mais fora no Bairro Chins que nos clubes sociais. Primeiro com debonas transformou-se numa contrariedade condas acadmicas que viam o matrimnio como situao mais ridcula que sagrada. Meu noivado cumprido com todos os rituais da moral cristerrao de orqudeas amaznicas e samambaias aradas da casa de minha noiva. Chegava s sete ate, todo de linho branco, e com um presente qualquer de adornos artesanais ou chocolates suos, e falvamos meio em cdigo e meio a srio at as dez, sob a custdia da tia Argnida, que adormecia no primeiro pestanejar como as amas guardis dos romances da poca.
Ximena ia se fazendo mais voraz  medida que nos conhecamos melhor, livrava-se de corpetes e anguas conforme apertavam os mormaos de junho, e era fcil imaginar  o poder de demolio que devia ter na penumbra. Aos dois meses de noivado no tnhamos do que falar, e ela props o tema dos filhos sem dizer nada, tecendo botinhas de croch em l crua para recm-nascidos. Eu, noivo gentil, aprendi a tecer com ela, e assim se foram as horas inteis que faltavam para o casamento, eu tecendo as botinhas azuis para meninos e ela tecendo as cor-de-rosa para meninas, para ver quem acertava, at que chegaram a ser suficientes para mais de meia centena de filhos. Antes que dessem as dez da noite eu subia numa charrete puxada a cavalo e ia para o Bairro Chins viver minha noite na paz de Deus. As tempestuosas despedidas de solteiro que me faziam no Bairro Chins iam na contramo dos seres opressivos do Club Social. Contraste que me serviu para saber qual dos dois mundos era na realidade o meu, e cheguei a ter a iluso de que os dois eram porm cada um na sua hora, pois de qualquer dos dois eu via o outro se afastar com os suspiros dilacerados com que se separam os barcos em alto-mar. O baile de vspera  no El Poder de Dios incluiu uma cerimnia final que s podia ter sido idia de um padre galego encalhado na concupiscncia, que vestiu a mulherada com vus e botes de flor de laranjeira, para que todas se casassem comigo num sacramento universal. Foi uma noite de grandes sacrilgios em que vinte e duas delas prometeram amor e obedincia e respondi prometendo fidelidade e sustento at o alm-tmulo.
No consegui dormir por causa do pressgio de algo irremedivel. J na madrugada comecei a contar a passagem das horas no relgio da catedral, at as sete badaladas temveis em que deveria estar na igreja. A campainha do telefone comeou s oito; longa,tenaz, inesperada, durante mais de uma hora. No apenas no respondi: no respirei. Pouco antes das dez bateram na porta, primeiro com a mo, e depois com gritos e vozes conhecidas e abominadas. Temia que a derrubassem por alguma desgraa grave, mas l pelas onze a casa ficou no silncio ouriado que vem logo depois das grandes catstrofes. Ento chorei por ela e por mim, e rezei de todo corao para no me encontrar com ela nunca mais em meus dias.
Algum santo me ouviu em parte, pois Ximena Ortiz foi-se embora do pas naquela mesma noite e s voltou uns vinte anos depois, bem-casada e com os sete filhos que podiam ter sido meus.
Muito trabalho me deu manter meu posto e minha coluna de El Dirio de La Paz depois daquela afronta social. Mas no foi por isso que relegaram minhas crnicas para a pgina onze, e sim pelo mpeto cego com que entrou o sculo XX. O progresso se transformou no mito da cidade. Tudo mudou;voaram os avies e um homem de viso atirou um saco de cartas de um Junker e inventou o correio areo.
A nica coisa que permaneceu igual foram minhas crnicas no jornal. As novas geraes arremeteram contra elas, como contra uma mmia do passado que devia ser demolida, mas eu as mantive no mesmo tom, sem concesses, contra os ares de renovao. Fui surdo a tudo. Havia feito quarenta anos, mas os redatores jovens a chamavam de a Coluna de Mudarra,o Bastardo. O diretor daquela poca me chamou ento ao seu escritrio para pedir que eu me pusesse afinado com as novas correntes. De um jeito solene, como se acabasse de inventar, me disse: O mundo avana. Sim, respondi, avana, mas dando voltas ao redor do sol. Manteve minha crnica dominical porque no encontraria outro domador de telegramas. Hoje sei que eu tinha razo, e por qu. Os adolescentes da minha gerao, vidos pela vida, esqueceram de corpo e alma as iluses do porvir, at que a realidade ensinou a eles que o futuro no era do jeito que sonhavam e descobriram a nostalgia. L estavam minhas crnicas dominicais, como uma relquia arqueolgica entre os escombros do passado, e se deram conta de que elas no eram s para velhos mas para jovens que no tiveram medo de envelhecer. A crnica voltou ento  seo editorial e, em ocasies especiais,  primeira pgina. A quem me pergunta respondo sempre com a verdade: as putas no me deram tempo para casar. No entanto devo reconhecer que nunca tive essa explicao at o dia dos meus noventa anos, quando sa da casa de Rosa Cabarcas com a determinao de nunca mais provocar o destino. Eu me sentia outro. Meu humor se transtornou por causa da tropa que vi postada nas grades de ferro que rodeiam o parque. Encontrei Damiana esfregando o cho, de quatro na sala, e a juventude de suas coxas naquela idade me suscitou um tremor de outra poca. Ela deve ter pressentido alguma coisa porque se tapou  com a saia. No pude reprimir a tentao de perguntar a ela: Diga uma coisa, Damiana: de que voc se lembra? No estava me lembrando de nada, disse ela, mas sua  pergunta me faz lembrar. Senti uma opresso no peito. Nunca me apaixonei, disse a ela. E ela replicou de chofre: Pois eu, sim. E terminou sem interromper sua tarefa:
Chorei vinte e dois anos pelo senhor. Meu corao deu um salto. Buscando uma sada digna, disse a ela: Teramos feito uma boa dupla. Pois o senhor faz mal em me dizer isso agora, disse ela, porque j no me serve nem de consolo. Quando saa da casa, me disse do modo mais natural: O senhor no vai acreditar, mas continuo sendo virgem, graas a Deus.
Pouco depois descobri que ela tinha deixado floreiros de rosas vermelhas pela casa inteira, e um carto no travesseiro: Lhe desejo que xegue aos sem. com este desconcerto sentei-me para continuar a crnica que havia deixado pela metade na noite anterior. Terminei-a num flego s em menos de duas horas e tive de me espremer at o fim para arranc-la das entranhas sem que ningum notasse meu pranto. Por um golpe de inspirao tardia decidi arremat-la com o anncio de que com ela punha um final feliz a uma vida longa e digna sem a desagradvel circunstncia de morrer.
Meu propsito era deixar a crnica na portaria do jornal e voltar para casa. Mas no consegui. O pessoal todo estava me esperando para celebrar meu aniversrio. O edifcio estava em obras, com andaimes e escombros frios por todo lado, mas haviam parado as obras para a festa. Numa mesa de carpinteiro estavam as bebidas para os brindes e os presentes embrulhados em papel de seda. Aturdido pelos relmpagos das cmeras, fiquei com todas as fotos da lembrana. Alegrei-me por encontrar ali jornalistas de rdio e dos outros jornais da cidade: La Prensa, matutino conservador; ElHeraldo, matutino liberal, e El Nacional, vespertino sensacionalista que tratava de aliviar as tenses da ordem pblica com folhetins passionais. No era estranho que estivessem juntos, pois dentro do esprito da cidade foi sempre de bom alvitre que se mantivessem intactas as amizades da tropa enquanto os marechais travavam sua guerra editorial.
Tambm estava l, e fora de seu horrio, o censor oficial, Jernimo Ortega, que chamvamos de Abominvel Homem das Nove porque chegava pontual a essa hora da noite com seu lpis sangrento de strapa godo. Ficava por l at assegurar-se de que no houvesse letra impune na edio da manh. Tinha uma averso pessoal contra mim, por minhas veleidades de gramtico, ou porque utilizava palavras italianas sem aspas e sem grifar quando me pareciam mais expressivas que em castelhano, como deveria ser de uso legtimo entre lnguas siamesas. Depois de atur-lo por quatro anos, tnhamos terminado por aceit-lo como a m conscincia de ns mesmos.As secretrias levaram ao salo um bolo com noventa velas acesas que fizeram com que eu enfrentasse pela primeira vez o nmero de meus anos. Tive de tragar as lgrimas quando cantaram parabns e lembrei da menina sem motivo algum. No foi um golpe de rancor mas de compaixo tardia por uma criatura de quem no esperava tornar a me lembrar. Quando o arrepio da emoo acabou de passar algum havia posto uma faca em minha mo para que eu cortasse o bolo. Por medo do deboche ningum quis se arriscar a improvisar um discurso. Eu teria preferido morrer a responder. Para terminar a festa, o chefe de redao, por quem nunca tive grande simpatia, nos devolveu  realidade inclemente. Agora, sim, ilustre nonagenrio, me disse: Onde est a sua crnica? A verdade  que a tarde inteira eu a sentia ardendo como uma brasa no meu bolso, mas a emoo havia entrado to fundo que no tive razo para aguar a festa com minha demisso. Disse: Hoje no tem. O chefe de redao ficou aborrecido pela falta que seria inconcebvel desde o sculo anterior. Entenda de uma vez por todas, disse eu, tive uma noite to difcil que amanheci emburrecido. Pois devia ter escrito sobre isso, disse ele com seu humor de vinagre. Os leitores gostaro de saber de primeira mo como  a vida aos noventa. Uma das secretrias intrometeu-se. Vai ver  um segredo delicioso, disse, e me olhou com malcia: Ou no? Uma rajada ardente abrasou meu rosto. Maldio, pensei, como o rubor  desleal. Outra, radiante, me apontou com o dedo. Que maravilha! Ainda tem a elegncia de ficar vermelho. Sua impertinncia me provocou outro rubor em cima do rubor. Deve ter sido uma noite feroz, disse a primeira secretria: Que inveja! E me deu um beijo que ficou pintado na minha cara. Os fotgrafos deliraram. Ofuscado, entreguei a crnica ao chefe de redao, e falei que o que tinha dito antes era brincadeira, aqui est ela, e escapei atarantado pela ltima salva de aplausos, para no estar presente quando descobrissem que era minha carta de demisso ao final de meio sculo de gals. A ansiedade continuava a durar em mim naquela noite, enquanto desembrulhava os presentes em casa. Os linotipistas desacertaram com uma cafeteira eltrica igual s trs de meus aniversrios anteriores. Os tipgrafos me deram de presente uma autorizao para apanhar um gato angor no depsito municipal. A gerncia me deu uma bonificao simblica. As secretrias me deram trs cuecas de seda com marcas de beijos estampados e um cartozinho em que se ofereciam para apag-los. Na hora, pensei que um dos encantos da velhice so as provocaes que as amigas jovens se permitem, achando que a gente est fora do jogo.
Jamais soube quem me mandou um disco que trazia os vinte e quatro preldios de Chopin com Stefan Askenase. Os redatores, em sua maioria, me deram livros que estavam na moda. No havia acabado de desembrulhar os presentes quando Rosa Cabarcas me ligou com a pergunta que eu no queria ouvir: O que aconteceu com a menina? Nada, respondi sem pensar. Voc acha que no ter nem acordado a menina  nada?, disse Rosa Cabarcas. Uma mulher no perdoa nunca que um homem a despreze na estria. Aleguei que a menina no poderia estar to exausta s de pregar botes e que talvez tenha bancado a adormecida de tanto medo da  transa. A nica coisa grave, disse Rosa,  que ela acha de verdade que voc j no serve mais, e eu no gostaria que a menina andasse por a espalhando isso aos quatro ventos.
No dei a Rosa o prazer de me surpreender. Pois mesmo que isso fosse verdade, respondi, seu estado  to deplorvel que no d para contar com ela nem dormindo nem acordada:  carne de hospital. Rosa Cabarcas baixou o tom: A culpa  da pressa com que fizemos o trato, mas tem remdio, voc vai ver. Prometeu pr a menina em confisso, e se fosse o caso obrig-la at mesmo a devolver o dinheiro, o que voc acha? Deixa como est, respondi, no aconteceu nada, e alm do mais me serviu de prova de que no estou dando mais para essas coisas. Nesse sentido a menina tem razo: no sirvo mais. Desliguei o telefone, saturado por um sentimento de libertao que no tinha conhecido na vida, e finalmente a salvo de uma servido que me mantinha subjugado desde os meus treze anos. s sete da noite fui o convidado de honra do concerto de Jacques Thibault e Alfred Cortot na sala de Belas-Artes, com uma interpretao gloriosa da sonata para violino e piano de Csar Frank, e no intervalo escutei elogios inverossmeis. O maestro Pedro Biava, nosso msico enorme, levou-me quase arrastado ao camarim para 
me apresentar aos intrpretes. 
Fiquei to atordoado que acabei cumprimentando os dois por uma sonata de Schumann que eles nem tinham tocado, e algum me corrigiu em pblico e de um jeito ruim.
A impresso de que eu havia confundido as duas sonatas por simples ignorncia ficou semeada no ambiente e agravada por uma explicao atrapalhada com que tentei  remend-la no domingo seguinte, na minha resenha crtica do concerto.
Pela primeira vez em minha longa vida me senti capaz de matar algum. Voltei para casa atormentado pelo diabinho que sopra no ouvido as respostas devastadoras que no demos na hora certa, e nem a leitura nem a msica mitigaram a minha raiva. Por sorte Rosa Cabarcas me tirou do desvario com um grito no telefone: Estou feliz com o jornal, porque no achei que voc estava fazendo noventa mas cem. Respondi encrespado: Voc me achou to fodido assim? Pelo contrrio, disse ela, o que me surpreendeu foi ver voc to bem. Que bom que voc no virou um desses velhos assanhados que aumentam a idade para que todo mundo  ache que est muito bem. E mudou de assunto sem intervalo: Tenho seu presente aqui. Fiquei surpreso de verdade: O que ? A menina, disse ela.
No precisei nem de um instante para pensar. Obrigado, disse a ela, mas esse assunto so guas passadas. Ela continuou ao largo: vou mand-la  sua casa embrulhada em papel de seda e fervida com pau de sndalo no banho-maria, tudo de graa. Fiquei firme, e ela se debateu numa explicao enrolada que me pareceu sincera. Disse que a menina estava em to mau estado naquela sexta-feira por ter pregado duzentos botes com agulha e dedal. Que era de verdade seu medo das violaes sangrentas, mas que j estava instruda para o sacrifcio. Que naquela noite passada comigo ela tinha se levantado para ir ao banheiro e que eu estava num sono to profundo que sentiu pena de me despertar, e quando acordou de manh eu j tinha ido embora. Fiquei indignado com aquela mentira que me pareceu intil. Bem, prosseguiu Rosa Cabarcas, mesmo que fosse mentira, ela est arrependida. Coitadinha, est aqui na minha frente. Quer falar com ela? Pelo amor de Deus, no, respondi. Tinha comeado a escrever quando a secretria do jornal ligou. O recado era que o diretor queria me ver no dia seguinte s onze da manh. Cheguei pontual. O estrondo da reforma do prdio no parecia suportvel, o ar estava pesado por causa das marteladas, o p de cimento e a fumaa de alcatro, mas a redao tinha aprendido a pensar na rotina do caos. O escritrio do diretor, porm, gelado e silente, permanecia num pas ideal que no era o nosso. O terceiro Marco Tulio, com um ar adolescente, ficou de p ao me ver entrar, sem interromper uma conversa no telefone, apertou a minha mo por cima da escrivaninha e fez um sinal indicando que eu me sentasse. Cheguei a pensar que no havia ningum no outro lado da linha, e que fazia aquela farsa para me impressionar, mas logo descobri que ele falava com o governador, e era de verdade um dilogo difcil entre inimigos cordiais. Alm do mais, acho que se esmerava para parecer enrgico na minha frente, embora ao mesmo tempo se mantivesse de p enquanto falava com a autoridade.Dava para notar seu vcio pela pulcritude. Acabava de fazer vinte e nove anos com quatro idiomas e trs mestrados internacionais,  diferena do primeiro presidente vitalcio, seu av paterno, que se fez jornalista emprico depois de ter amealhado uma fortuna com o trfico de brancas. Tinha maneiras fceis, se passava por galhardo e sereno, e a nica coisa que punha sua superioridade em perigo era uma nota falsa na voz. Usava um palet esportivo com uma orqudea viva na lapela, e cada coisa parecia como se fosse de sua prpria natureza, mas nada nele estava feito para o clima do vale e sim para a primavera de seu escritrio. Eu, que tinha gasto quase duas horas para me vestir, senti o oprbrio da pobreza, e minha raiva aumentou.
Contudo, o veneno mortal estava numa foto panormica dos funcionrios, feita no XXV aniversrio da fundao do jornal, e na qual estavam assinalados com uma cruzinha sobre a cabea os que iam morrendo. Eu era o terceiro da direita, com o chapu de palha, a gravata de lao grande com uma prola no prendedor, o primeiro bigode de coronel de guarda civil que tive at os quarenta anos, e os culos metlicos de seminarista que no me fizeram falta depois do meio sculo. Havia visto aquela foto dependurada durante anos em diferentes escritrios, mas s ento fui sensvel  sua mensagem: dos quarenta e oito empregados originais s quatro estvamos vivos, e o mais jovem de ns cumpria uma pena de vinte anos por assassinato mltiplo.
O diretor terminou a ligao, me surpreendeu olhando a foto e sorriu. Quem ps as cruzinhas no fui eu, disse. Acho que so de muito mau gosto. Sentou-se  escrivaninha e mudou de tom: Permita-me dizer que o senhor  o homem mais imprevisvel que conheci. E, diante da minha surpresa, se antecipou a tudo: Estou falando da sua demisso. Mal consegui dizer:  uma vida inteira. Ele replicou que justamente por isso no era uma soluo pertinente. Tinha achado a crnica magnfica, e tudo o que dizia da velhice era o melhor que jamais havia lido, e no tinha sentido termin-la com uma deciso que mais parecia uma morte civil. Por sorte, disse ele, o Abominvel Homem das Nove leu a crnica quando ela j estava armada na pgina editorial e achou que era inadmissvel. Sem consultar ningum riscou-a de alto a baixo com seu lpis de Torquemada. Quando fiquei sabendo esta manh mandei que enviassem uma nota de protesto ao Governo. Era meu dever, mas c entre ns posso dizer que estou muito agradecido pela arbitrariedade do censor. Quero dizer que no estava disposto a aceitar que a crnica fosse suspensa. Suplico ao senhor do fundo da minha alma, disse. No abandone o barco em alto-mar. E concluiu em grande estilo: Ainda temos muito pela frente para falar de msica.
Senti que ele estava to decidido, que no me atrevi a agravar a divergncia com um argumento qualquer. O problema, na realidade, era que nem naquela hora eu encontrava um motivo decente para abandonar a roda-viva, e me aterrorizou a idia de dizer a ele que sim, uma vez mais, s para ganhar tempo. Tive que me reprimir para que no notasse a emoo impudica que me sufocava at as lgrimas. E outra vez, como sempre, depois de tantos anos ficamos na mesma de sempre. Na semana seguinte, presa de um estado que era mais de confuso que de alegria, passei pelo depsito municipal para recolher o gato que os impressores tinham me dado de aniversrio. Tenho uma qumica ruim com os animais, do mesmo jeito que com as crianas assim que comeam a falar. Acho que so mudos de alma. No os odeio, mas no consigo suport-los porque no aprendi a negociar com eles. Acho contra a natureza que um homem se entenda melhor com seu co do que com sua esposa, que o ensine a comer e a descomer na hora certa, a responder perguntas e a compartilhar suas penas. Mas no recolher o gato dos tipgrafos seria uma indelicadeza. Alm do mais, era um precioso exemplar de angor, de pele rosada e lustrosa e olhos iluminados, cujos miados pareciam a ponto de ser palavras. Me deram numa canastra de vime com um  certificado de sua estirpe e um manual de uso como o que vem com as bicicletas para armar.
Uma patrulha militar verificava a identidade dos transeuntes antes de autorizar a passagem pelo parque de San Nicolas. Nunca havia visto nada igual nem podia imaginar nada mais desalentador como sintoma da minha velhice. Era uma patrulha de quatro, comandada por um oficial quase adolescente. Os agentes eram homens toscos, duros e calados, com um odor de estbulo. O oficial vigiava tudo com as faces tostadas dos andinos na praia. Depois de examinar minha carteira de identidade e minha credencial de jornalista me perguntou o que eu levava na cesta. Um gato, respondi. Ele quis ver. Destapei a cesta com toda precauo com medo de que o gato escapasse, mas um agente quis ver se havia alguma outra coisa no fundo, e o gato esticou-lhe as garras. O oficial se interps.  uma jia de angor, disse. Acariciou-o enquanto murmurava alguma coisa, e o gato no o agrediu mas tambm no lhe deu a menor confiana. Quantos anos tem?, perguntou. No sei, respondi, acabo de ganhar de presente. Estou perguntando porque d para ver que  muito velho, uns dez anos, talvez. Quis perguntar como  que sabia, e muitas outras coisas, mas a despeito de suas boas maneiras e de sua fala floreada no me sentia com estmago para falar com ele. Acho que  um gato abandonado que passou por poucas e boas, falou. Observe-o, no o acostume ao senhor, mas, ao contrrio, o senhor que se acostume a ele, e deixe-o em paz, at ganhar sua confiana. Fechou a tampa da cesta e me perguntou: O senhor trabalha em qu? Sou jornalista. Desde quando? Faz um sculo, respondi. No duvido, disse ele. Apertou a minha mo e se despediu com uma frase que podia ser um bom conselho ou uma ameaa:
 V com muito cuidado.



Ao meio-dia desliguei o telefone para me refugiar num programa especial: a rapsdia para clarineta e orquestra de Wagner, a de saxofone de Debussy e o quinteto de cordas de Bruckner, que  um remanso ednico no cataclismo da sua obra. E de repente me encontrei envolto nas sombras do estdio. Senti deslizar debaixo da minha mesa algo que no me pareceu um corpo vivo e sim uma presena sobrenatural que roou meus ps, e saltei com um grito. Era o gato com sua bela cauda empenachada, sua lentido misteriosa e sua estirpe mtica, e no consegui evitar o calafrio de estar sozinho na casa com um ser vivo que no era humano.
Quando deram as sete na catedral, havia uma estrela solitria e lmpida no cu cor-de-rosas, um barco lanou um adeus desconsolado, e senti na garganta o n grdio de todos os amores que puderam ter sido e que no foram. No agentei mais. Peguei o telefone e disquei os quatro nmeros muito devagar para no errar, e no terceiro toque reconheci a voz. Muito bem, mulher, perdoe minha malcriao desta manh. Ela, tranquila: No se preocupe, estava esperando seu telefonema. Adverti: Quero que a menina me espere como Deus a botou no mundo e sem vernizes na cara. Ela soltou sua risada gutural. O que voc quiser, disse, mas est perdendo o gostinho de deix-la peladinha pea por pea, como os velhos adoram, sei l por qu. Mas eu, sim, sei, respondi: Porque esto ficando cada vez mais velhos. Ela concordou com tudo.  Est bem  disse , ento esta noite s dez em ponto, antes que o sufl desande.
Como ser que se chamam? A dona no tinha dito. Quando me falava dela s dizia: a menina. E eu tinha transformado isso em nome de batismo, como a menina dos olhos.
Alm do mais, para cada cliente Rosa Cabarcas punha em suas discpulas um nome diferente. Eu me divertia adivinhando esses nomes pelas caras, e desde o comeo tive certeza que a menina tinha um comprido, como Filomena, Saturnina ou Nicolasa. E estava nisso quando ela deu meia-volta na cama e ficou de costas para mim, e achei que tinha deixado um charco de sangue do tamanho e da forma do corpo. Foi um sobressalto instantneo at eu comprovar que era a umidacte do suor no lenol. Rosa Cabarcas tinha me aconselhado a tratar a menina com cuidado, pois ela ainda sentia um resto do susto da primeira vez. E tem mais: acho que a prpria solenidade do ritual havia agravado o medo e tinha sido preciso aumentar a dose de valeriana, pois dormia com tal placidez que teria sido uma pena despert-la sem arrulhos. Assim, comecei a sec-la com a toalha enquanto cantava para ela em sussurros a cano de Delgadina, a filha mais nova do rei, requerida de amores pelo pai.  medida que a secava ela ia me mostrando os flancos suados ao compasso de meu canto: Delgadina, Delgadina, tu sers minha prenda amada. Foi um prazer sem limites, pois ela tornava a suar por um lado quando eu acabava de sec-la pelo outro, para que a cano no terminasse nunca. Levanta, Delgadina, ponha tua saia de seda, eu cantava junto ao seu ouvido. No final, quando os criados do rei a encontraram morta de sede em sua cama, achei que minha menina estava a ponto de despertar ao escutar o nome. Ento, essa era ela: Delgadina.
Voltei para a cama com minha cueca de beijos estampados e me estendi ao lado dela. Dormi at as cinco ao acalanto de sua respirao apaziguada. Me vesti depressa e sem me lavar, e s ento vi a sentena escrita com batom no espelho da pia: O tigre no come longe. Sei que no estava l na noite anterior e que ningum podia ter entrado no quarto, de maneira que entendi a frase como um presente do diabo. Um trovo aterrorizante me surpreendeu na porta, e o quarto se encheu do cheiro premonitrio de terra molhada. No tive tempo de escapar ileso. Antes que encontrasse um txi precipitou-se um grande aguaceiro, desses que costumam desordenar a cidade entre maio e outubro, pois as ruas e areias ardentes que descem para o rio se convertem em corredeiras que arrastam tudo que encontram pela frente. As guas daquele setembro estranho, depois de trs meses de seca, tanto podiam ser providenciais como devastadoras.
Assim que abri a porta de casa, saiu ao meu encontro a sensao fsica de que eu no estava sozinho. Cheguei a sentir o pressgio do gato saltando do sof e escapulindo pela varanda. Em seu prato restavam as sobras de uma comida que eu no havia servido. A pestilncia de suas urinas ranosas e de sua caca quente havia contaminado tudo. 
Eu tinha me dedicado a estud-lo como estudei latim. 

O manual dizia que os gatos cavucam a terra para esconder seu esterco, e que nas casas sem quintal, como esta, fariam isso nos vasos de plantas ou em qualquer outro esconderijo. O apropriado seria preparar para ele desde o primeiro dia uma caixa com areia para orientar seu hbito, e foi o que fiz. Tambm dizia que a primeira coisa que fazem  numa nova casa  marcar seu territrio urinando por todos os lados, e aquele talvez fosse o caso, mas o manual no dizia como remediar. Eu seguia suas artimanhas para me familiarizar com seus hbitos originais, mas no dei com seus esconderijos secretos, seus lugares de repouso, as causas de seus humores volveis. Quis ensin-lo a comer na hora certa, a usar a caixinha de areia no terrao, a no subir na minha cama enquanto eu dormia nem a fuar os alimentos na mesa, e no consegui fazer com que entendesse que a casa era dele por direito adquirido e no como um butim de guerra. Acabei deixando que fizesse o que bem entendesse.
Ao entardecer enfrentei o aguaceiro, cujos ventos enfurecidos de ciclone ameaavam destrambelhar a casa. Sofri um ataque de espirros sucessivos, meu crnio doa e eu estava com febre, mas me sentia possudo por uma fora e uma determinao que no tive nunca a nenhuma idade e por causa alguma. Coloquei caarolas no cho para recolher as goteiras e percebi que haviam aparecido algumas novas desde o inverno anterior. A maior delas tinha comeado a inundar o lado direito da biblioteca. Corri para resgatar os autores gregos 
e latinos que viviam por aqueles lados, mas ao tirar os livros encontrei um jorro de alta presso que saa de um cano furado no fundo da parede. Amordacei-o com trapos at onde pude para que me desse tempo de salvar os livros. O estrpito da gua e o uivo do vento ganharam fora no parque. De repente, um relmpago fantasmagrico e seu trovo simultneo impregnaram o ar de um forte cheiro de enxofre, o vento desbaratou as vidraas da varanda e a tremenda borrasca de mar arrebentou as fechaduras  e se meteu dentro da casa. E no entanto, antes que se passassem dez minutos escampou de repente. Um sol esplndido secou as ruas cheias de escombros encalhados, e voltou o calor. Quando o aguaceiro passou eu continuava com a sensao de que no estava sozinho na casa. Minha nica explicao  que da mesma forma que os fatos reais so esquecidos, tambm alguns que nunca aconteceram podem estar na lembrana como se tivessem acontecido. Pois se evocava a emergncia do aguaceiro no me via a mim mesmo sozinho na casa, mas sempre acompanhado por Delgadina. Eu a havia sentido to perto durante a noite que sentia o rumor de seu respirar no quarto de dormir, e a pulsao de sua face em meu travesseiro. S assim entendi que tivssemos podido fazer tanto em to pouco tempo. Eu me lembrava de ter subido no escabelo da biblioteca e a recordava desperta com seu vestidinho de flores recebendo os livros para coloc-los a salvo. Via como ela corria de um lado a outro na casa batalhando com a tormenta, empapada de chuva e com gua pelos tornozelos. Recordava como preparou no dia seguinte o caf da manh que nunca houve, e que ps a mesa enquanto secava o cho e punha ordem no naufrgio da casa. Nunca esqueci seu olhar sombrio enquanto tomvamos o caf da manh: Por que voc me conheceu to velho? Respondi com a verdade: A idade no  a que a gente tem, mas a que a gente sente. Desde ento a tive na memria com tamanha nitidez que fazia dela o que queria. Mudava a cor de seus olhos conforme o meu estado de nimo: cor de gua ao despertar, cor de acar queimado quando ria, cor de lume quando a contrariava. E a vestia para a idade e a condio que convinham s minhas mudanas de humor: novia apaixonada aos vinte anos, puta de salo aos quarenta, rainha da Babilnia aos setenta, santa aos cem. Cantvamos duetos de amor de Puccini, boleros de Agustn Lara, tangos de Carlos Gardel, e comprovvamos uma vez mais que aqueles que no cantam no podem nem imaginar o que  a felicidade de cantar. Hoje sei que no foi uma alucinao, e sim um milagre a mais do primeiro amor da minha vida aos noventa anos.
Quando a casa ficou em ordem, telefonei para Rosa Cabarcas. Santo Deus!, exclamou ao ouvir minha voz, achei que voc tinha se afogado. No conseguia entender que eu tivesse tornado a passar a noite com a menina sem toc-la. Voc tem todo o direito de no gostar dela, mas pelo menos porte-se como um adulto. Tratei de explicar, mas ela mudou de assunto sem transio: Seja como for estou de olho em outra um pouco mais velha, bela e tambm virgem. O pai quer troc-la por uma casa, mas d para discutir algum desconto. 
Meu corao gelou. De jeito nenhum, protestei, quero aquela mesma, e do mesmo jeito, sem fracassos, sem brigas, sem recordaes ruins. Houve um silncio no telefone, e finalmente a voz com que disse como se falasse sozinha: Bem, vai ver  isso que os mdicos chamam de demncia senil.
Fui s dez da noite com um chofer conhecido pela estranha virtude de no fazer perguntas. Levei um ventilador porttil e um quadro de Orlando Rivera, o querido Figurita, e um martelo e um prego para pendur-lo. No caminho fiz uma parada para comprar escova de dentes, pasta dentifrcia, sabo de cheiro, gua de Florida, barras de alcauz. Quis levar tambm um bom floreiro e um ramo de rosas amarelas para conjurar a sorte ruim trazida pelas flores de papel, mas no encontrei nada aberto e tive que roubar num jardim particular um ramo de recm-nascido amor-perfeito.
Por instrues da dona cheguei desde ento pela rua de trs, do lado do aqueduto, para que ningum me visse entrar pelo porto do pomar. O chofer me preveniu: Cuidado, sbio, nessa casa matam gente.
Respondi: Se for por amor, no importa. O quintal estava em trevas, mas havia luzes de vida nas janelas e um emaranhado de msicas nos seis quartos. No meu, em volume mais alto, distingui a voz clida de dom Pedro Vargas, o Tenor da Amrica, num bolero de Miguel Matamoros. Senti que ia morrer. Empurrei a porta com a respirao desbaratada e vi Delgadina na cama como em minhas recordaes: nua e dormindo na santa paz do lado do corao.
Antes de me deitar arrumei a cmoda, pus o ventilador novo no lugar do enferrujado e dependurei o quadro num lugar onde ela pudesse ver da cama. Deitei-me ao seu lado e a reconheci palmo a palmo. Era a mesma que andava pela minha casa: as mesmas mos que me reconheciam s apalpadelas na escurido, os mesmos ps de passos tnues que se confundiam com os do gato, o mesmo cheiro do suor de meus lenis, o dedo do dedal. Incrvel: vendo-a e tocando-a em carne e osso, me parecia menos real que em minhas lembranas.
Tem um quadro na parede a em frente, disse a ela. Quem pintou foi o Figurita, um homem de quem ns gostvamos muito, o melhor bailarino de bordel que jamais existiu, e de corao to bom que tinha pena do diabo. Ele pintou esse quadro com verniz de barcos na tela chamuscada de um avio que se espatifou na Sierra Nevada de Santa Marta e com pincis que ele mesmo fabricava com plos do seu cachorro. A mulher pintada  uma monja que ele seqestrou de um convento e com quem se casou. vou deix-lo aqui, para que seja a primeira coisa que voc veja ao despertar.
No havia mudado de posio quando apaguei a luz,  uma da madrugada, e sua respirao era to tnue que tomei seu pulso para senti-la viva. O sangue circulava por suas veias com a fluidez de uma cano que se ramificava at os mbitos mais recnditos de seu corpo e voltava ao corao purificado pelo amor.
Antes de ir embora ao amanhecer, desenhei num papel as linhas da sua mo e dei para Diva Sahib ler e conhecer sua alma. E ela disse assim:  uma pessoa que s diz o que pensa.  perfeita para trabalhos manuais. Tem contato com algum que j morreu e de quem espera ajuda, mas est enganada: a ajuda que procura est ao alcance de sua mo. No teve nenhuma unio, mas vai morrer mais velha e casada. Agora tem um homem moreno, que no haver de ser o da sua vida. Pode ter oito filhos, mas vai se decidir por apenas trs. Aos trinta e cinco anos, se fizer o que o corao mandar, e no a mente, vai lidar com muito dinheiro, e aos quarenta vai receber uma herana. Vai viajar muito. Tem vida dupla e dupla sorte, e pode influir em seu prprio destino. Gosta de provar de tudo, por curiosidade, mas vai se arrepender se no se orientar pelo corao.
Atormentado de amor, mandei consertar os estragos da borrasca e aproveitei para providenciar muitos outros remendos que vinha demorando fazia anos por insolvncia ou por indolncia. Reorganizei a biblioteca, na ordem em que os livros tinham sido lidos. No fim me livrei da pianola como se fosse relquia histrica, com seus mais de cem rolos de clssicos, e comprei um toca-discos usado mas melhor que o meu, com alto-falantes de alta fidelidade que aumentaram o ambiente da casa. Fiquei  beira da runa mas bem compensado pelo milagre de estar vivo na minha idade.

A casa renascia de suas cinzas e eu navegava no amor de Delgadina com uma intensidade e uma felicidade que jamais conheci em minha vida anterior. Graas a ela enfrentei pela primeira vez meu ser natural enquanto transcorriam meus noventa anos. Descobri que minha obsesso por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, no era o prmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrrio, todo um sistema de simulao inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que no sou disciplinado por virtude, e sim como reao contra a minha negligncia; que pareo generoso para encobrir minha mesquinhez, que me fao passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para no sucumbir s minhas cleras reprimidas, que s sou pontual para que ningum saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor no  um estado da alma e sim um signo do zodaco.
Virei outro. Tratei de reler os clssicos que me mandaram ler na adolescncia, e no agentei. Mergulhei nas letras romnticas que tanto repudiei quando minha me quis -me forar a ler e gostar, e atravs delas tomei conscincia de que a fora invencvel que impulsionou o mundo no foram os amores felizes e sim os contrariados. Quando meus gostos musicais entraram em crise me descobri atrasado e velho, e abri meu corao s delcias do acaso.
Me pergunto como pude sucumbir nesta vertigem perptua que eu mesmo provocava e temia. Flutuava entre nuvens errticas e falava sozinho diante do espelho com a v iluso de averiguar quem sou. Era tal meu desvario, que em uma manifestao estudantil com pedras e garrafas tive que buscar foras na fraqueza para no me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse minha verdade: Estou louco de amor.
Obnubilado pela evocao inclemente de Delgadina adormecida, mudei sem a menor malcia o esprito de minhas crnicas dominicais. Fosse qual fosse o assunto as escrevia para ela, nelas ria e chorava para ela, e em cada palavra se ia a minha vida. No lugar da frmula de folhetim tradicional que as crnicas tiveram desde sempre, as escrevi como cartas de amor que cada um podia tornar suas. Propus no jornal que o texto no fosse levado s linotipos mas publicado com minha caligrafia florentina. O chefe de redao,  claro, achou que era outro acesso de vaidade senil, mas o diretor geral o convenceu com uma frase que at hoje continua solta pela redao:  No se engane: os loucos mansos se antecipam ao porvir.
A resposta pblica foi imediata e entusiasta, com numerosas cartas de leitores apaixonados. Algumas eram lidas nos noticirios de rdio com urgncia de ltima hora, e foram feitas cpias em mimegrafo ou papel carbono, que eram vendidas como cigarros de contrabando nas esquinas da rua San Blas. Desde o comeo foi evidente  que obedeciam s nsias de expressar-me, mas me acostumei a levar em conta essa ansiedade ao escrever, e sempre com a voz de um homem de noventa anos que no aprendeu a pensar como velho. A comunidade intelectual, como de hbito, mostrou-se timorata e dividida, e at os graflogos menos esperados montaram controvrsias pelas anlises errticas da minha caligrafia. Foram eles os que dividiram os nimos, reaqueceram a polemica e puseram a nostalgia na moda. Antes do fim do ano eu tinha combinado com Rosa Cabarcas para deixar no quarto a ventoinha, os apetrechos e utenslios de toucador e tudo que eu levasse dali em diante para torn-lo mais vivvel. Chegava s dez, sempre com alguma coisa nova para ela, ou para dar gosto a ns dois, e dedicava uns minutos tirando a parafernlia escondida para armar o teatro das nossas noites. Antes de ir embora, nunca depois das cinco, tornava a trancar tudo a chave. A alcova ento ficava to esqulida como havia sido em suas origens para os amores tristes dos clientes casuais. Certa manh ouvi que Marcos Prez, a voz mais ouvida do rdio desde o amanhecer, havia decidido ler minha crnica dominical em seus noticirios das segundas-feiras. Quando consegui reprimir a nusea disse assustado: Fique sabendo, Delgadina, a fama  uma senhora muito gorda que no dorme com a gente, mas quando a gente desperta ela est sempre olhando para ns, aos ps da cama.
Num daqueles dias fiquei para tomar o caf da manh com Rosa Cabarcas, que comeava a me parecer menos decrpita apesar do luto severo e do bon negro que j cobria suas sobrancelhas. 
Seus cafs da manh tinham a fama de ser esplndidos, com uma carga de pimenta que me fazia chorar. No primeiro bocado daquele fogo vivo disse a ela, banhado em lgrimas: Esta noite no vou precisar da lua cheia para que meu rabo arda. No se queixe, respondeu ela. Se arder  porque voc ainda tem rabo, graas a Deus.
Surpreendeu-se quando mencionei o nome de Delgadina. Ela no se chama assim, disse, ela se chama. No me conte, interrompi, para mim  Delgadina. Ela sacudiu os ombros: Bem, afinal de contas  sua, mas acho que parece nome de diurtico. Contei a histria da frase do tigre que a menina tinha escrito no espelho. No pode ter sido ela, disse Rosa, porque no sabe ler nem escrever. Ento, quem? Ela sacudiu os ombros: Pode ser algum que morreu nesse quarto.
Eu aproveitava aqueles cafs da manh para desabafar com Rosa Cabarcas e pedia favores mnimos para o bem-estar e o bem-se-ver de Delgadina. Ela concedia tudo sem pensar, com uma picardia de colegial. Que piada!, me disse num daqueles dias. Eu me sinto como se voc estivesse me pedindo a mo dela. E a propsito, acrescentou como se estivesse tendo a idia naquele exato instante, por que no se casa com ela? Fiquei mudo. De verdade, insistiu, vai sair mais barato. Afinal, o problema na sua idade  servir ou no servir, mas voc j me disse que esse assunto est resolvido. Atropelei: O sexo  o consolo que a gente tem quando o amor no nos alcana.
Ela soltou o riso: Ai, meu sbio, sempre soube que voc  muito macho, que sempre foi, e me alegra que continue sendo enquanto seus inimigos entregam as armas. Com razo se fala tanto de voc. Voc ouviu Marcos Prez? Todo mundo ouve, respondi, para cortar o assunto. Mas ela insistiu: Tambm o professor Camacho y Cano, em La Hora de todo um poo, disse ontem que o mundo j no  o que era porque no sobram muitos homens como voc.
Naquele fim de semana encontrei Delgadina com febre e com tosse. Despertei Rosa Cabarcas para que me desse algum remdio caseiro, e ela levou at o quarto uma caixinha de primeiros socorros. Dois dias depois Delgadina continuava prostrada e no tinha conseguido voltar  sua rotina de pregar botes. O mdico havia receitado um tratamento caseiro para uma gripe comum que cederia em uma semana, mas se alarmou com seu estado geral de desnutrio.

Deixei de v-la, e senti que me fazia falta, e aproveitei para arrumar o quarto sem ela.
Levei tambm um desenho que Ceclia Porras havia feito para todos que estvamos a  espera, o livro de contos de lvaro Cepeda. Levei os seis volumes de Juan Cristhal, de Romain Rolland, para pastorear minhas viglias. E assim, quando Delgadina pde voltar ao quarto encontrou-o digno de uma felicidade sedentria: o ar purificado com um inseticida aromtico, paredes cor-de-rosa, lmpadas suaves, flores novas nos floreiros, meus livros favoritos, os bons quadros de minha me dependurados de outro modo, seguindo os gostos de hoje. Havia mudado o velho rdio por um de ondas curtas que mantinha sintonizado num programa de msica culta, para que Delgadina aprendesse a dormir com os quartetos de Mozart, mas uma noite encontrei-o numa estao especializada em boleros da moda. Era o gosto dela, sem dvida, e o assumi sem dor, pois em meus melhores dias eu tambm havia cultivado os boleros com o corao. Antes de voltar para casa no dia seguinte escrevi no espelho com o batom: Minha menina, estamos sozinhos no mundo.

Naquela poca tive a estranha impresso de que ela estava envelhecendo antes do tempo. Comentei com Rosa Cabarcas, que achou que era natural. Faz quinze anos no dia cinco de dezembro, disse. Uma Sagitrio perfeita. E me inquietou o fato de ela ser to real a ponto de fazer aniversrio. O que eu poderia dar de presente? Uma bicicleta, disse Rosa Cabarcas. Ela tem que atravessar a cidade duas vezes por dia para ir pregar botes. Mostrou-me nos fundos do armazm a bicicleta que Delgadina usava, e de verdade me pareceu um ferro-velho indigno de uma mulher to bem amada. No entanto me comoveu como prova tangvel de que Delgadina existia na vida real. Quando fui comprar a melhor bicicleta no consegui resistir  tentao de experiment-la e dei algumas voltas a esmo na rampa da loja. 

Ao vendedor que me perguntou a minha idade respondi com a graa da velhice: vou fazer noventa e um. O empregado disse exatamente o que eu queria: Pois parece vinte a menos. Eu mesmo no entendia como havia conservado aquela prtica do colgio, e me senti sufocado por um gozo radiante. Comecei a cantar. Primeiro para mim mesmo, em voz baixa, e depois a todo vapor, com ares do grande Caruso, pelo meio dos bazares atopetados e o trfego demente do mercado pblico. As pessoas me olhavam, divertidas, e gritavam para mim, me incitavam a participar na Volta da Colmbia em cadeira de rodas. Eu lhes fazia com a mo uma saudao de navegante feliz sem interromper a cano. Naquela semana, em homenagem a dezembro, escrevi outra crnica atrevida: Como ser feliz aos noventa anos em uma bicicleta.
Na noite de seu aniversrio cantei para Delgadina a cano completa e beijei-a por todo o corpo at ficar sem respirao: a espinha dorsal, vrtebra por vrtebra, at as ndegas lnguidas, o lado da pinta, o de seu corao inesgotvel.  medida que a beijava aumentava o calor de seu corpo e ela exalava uma fragrncia de montanha.
Ela me respondeu com vibraes novas em cada polegada de sua pele, e em cada uma encontrei um calor diferente, um sabor prprio, um gemido novo, e ela inteira ressoou por dentro com um arpejo, e seus mamilos se abriram em flor sem ser tocados. Comeava a adormecer na madrugada quando senti como um rumor de multides no mar e um pnico das rvores que me atravessaram o corao. Ento fui at o banheiro e escrevi no espelho: Delgadina da minha vida, chegaram as brisas do Natal.
Uma de minhas lembranas mais felizes  o transtorno que senti certa manh como aquela, ao sair da escola. O que est acontecendo comigo? A professora me disse aparvalhada:
Ai, menino, no est vendo que so as brisas? Oitenta anos depois tornei a sentir tudo de novo quando despertei na cama de Delgadina, e era o mesmo dezembro que voltava pontual com seus cus difanos, as tormentas de areia, os torvelinhos da rua que destelhavam casas e erguiam as saias das colegiais. A cidade adquiria ento uma ressonncia fantasmagrica. Em noites de brisa podia-se escutar os gritos do mercado pblico at nos bairros mais altos, como se estivessem logo ali, na esquina.
No era estranho ento que as rajadas de dezembro nos permitissem encontrar por suas vozes os amigos espalhados nos bordis remotos.
No entanto, com as brisas me chegou a m notcia de que Delgadina no ia passar o Natal comigo, mas com sua famlia. Se tem uma coisa que detesto nesse mundo so as festas obrigatrias em que as pessoas choram porque esto alegres, os fogos de artifcio, as musiquinhas chochas, as grinaldas de papel de seda que no tm nada a ver com um menino que nasceu h dois mil anos num estbulo indigente. E, ainda assim, quando chegou a noite no consegui agentar a nostalgia e fui para o quarto sem ela. Dormi bem, despertei ao lado de um urso de pelcia que caminhava em duas patas como se fosse polar, e um cartozinho que dizia: Para o papai feio. Rosa Cabarcas tinha me dito que Delgadina estava aprendendo a ler com minhas aulas escritas no espelho, e sua boa letra me pareceu admirvel. Mas a prpria Rosa me frustrou com a m notcia de que o urso
era um presente dela mesma, e na noite de Ano-Novo fiquei na minha casa e na minha cama a partir das oito, e dormi sem amarguras. Fui feliz, porque ao toque das doze, entre o repicar furioso dos sinos, as sirenes das fbricas e dos bombeiros, os lamentos dos barcos, as descargas de plvora, os foguetes, senti que Delgadina entrou na ponta dos ps, deitou-se ao meu lado e me deu um beijo. Foi to real, que ficou na minha boca seu perfume de alcauz.
No comeo do novo ano agente j se conhecia como se vivssemos juntos e acordados, pois eu havia encontrado um torn de voz cauteloso que ela ouvia sem despertar, e me respondia com uma linguagem natural do corpo. Seus estados de alma eram notados em seu modo de dormir. De exausta e assustada que tinha sido no comeo, foi fazendo-se de uma paz interior que embelezava seu rosto enriquecia seu sono. Eu contava a minha vida, lia em seu ouvido os rascunhos de minhas crnicas dominicais em que, sem que eu dissesse, aparecia ela, e somente ela. Naquela poca deixei para ela no travesseiro uns brincos pingentes de esmeraldas que foram de minha me. 
Usou-os no encontro seguinte, mas no ficaram bem. Levei depois uns brincos mais adequados para a cor de sua pele. Expliquei: Os primeiros que trouxe no ficavam bem em voc por causa do seu tipo e pelo corte de seu cabelo. Estes ficaro melhor. No usou nenhum deles nos dois encontros seguintes, mas no terceiro ps os que eu havia indicado. Assim comecei a entender que no obedecia s minhas ordens, mas aguardava a ocasio para me agradar. Naqueles dias me senti to habituado com aquele gnero de vida domstica, que no continuei dormindo nu, mas levei o pijama de seda chinesa que havia deixado de usar por no ter para quem tirar.
Comecei a ler para ela O pequeno prncipe de Saint-Exupry, um autor francs que o mundo inteiro admira mais que os franceses. Foi o primeiro que a distraiu sem despert-la, a ponto de eu precisar ir at l dois dias seguidos para acabar de l-lo. Continuamos com os Contos de Perrault, a Histria sagrada, As mil e uma noites numa verso desinfetada para crianas, e pelas diferenas entre um e outro percebi que seu sono tinha diversos graus de profundidade segundo seu interesse pelas leituras. Quando sentia que havia tocado o fundo apagava a luz e adormecia abraado a ela at os galos cantarem.
Eu me sentia to feliz que beijava suas plpebras, muito suave, e uma noite aconteceu como uma luz no cu: ela sorriu pela primeira vez. Mais tarde, sem nenhum motivo, se revolveu na cama, me deu as costas, e disse com desgosto: Foi Isabel quem fez os caracis chorar. Exaltado pela iluso de um dilogo, perguntei no mesmo torn: E de quem eram? No respondeu. Sua voz tinha um rastro plebeu, como se no fosse dela e sim de algum alheio que levasse dentro. Toda sombra de dvida desapareceu ento da minha alma: eu a preferia adormecida.
Meu nico problema era o gato. Estava inapetente e irritadio e fazia dois dias que no levantava a cabea em seu canto habitual, e me lanou uma garra de fera ferida quando quis coloc-lo em sua cesta de vime para que Damiana o levasse ao veterinrio. Mal conseguiu domin-lo, e ela acabou levando o bicho se remexendo inteiro dentro de um saco de estopa. Logo depois me telefonou do depsito municipal para dizer que no havia outro remdio a no ser sacrific-lo, e que precisavam da minha autorizao. Por qu? Porque j est muito velho, disse Damiana. Pensei com raiva que tambm podiam muito bem me assar vivo num forno de gatos. Senti-me inerme entre dois fogos: no havia aprendido a gostar do gato, mas tampouco tinha corao para ordenar que o matassem s porque estava velho. Em que parte o manual dizia isso?
O incidente me abalou tanto que escrevi uma crnica para o domingo com um ttulo usurpado de Neruda: Ser um gato um tigre mnimo de salo? A crnica deu origem a uma nova campanha que outra vez dividiu os leitores a favor ou contra os gatos. Em cinco dias prevaleceu a tese de que podia ser lcito sacrificar um gato por motivos de sade pblica, mas no porque estivesse velho.
Depois da morte de minha me eu me desvelava de pavor de que algum tocasse em mim enquanto eu estivesse dormindo. Uma noite a senti, mas sua voz me devolveu o sossego:
Figlio mio poveretto. Tornei a sentir a mesma coisa certa madrugada no quarto de Delgadina, e me retorci de gozo achando que ela tinha tocado em mim. Mas no: era Rosa Cabarcas na escurido. Vista-se e venha comigo, disse ela, estou com um problema srio.
Era mesmo, e mais srio do que eu poderia imaginar. Um dos grandes clientes da casa tinha sido assassinado a punhaladas no primeiro quarto do galpo. O assassino tinha escapado. O cadver enorme, nu, mas de sapatos, tinha uma palidez de frango fervido a vapor na cama empapada de sangue. Reconheci de sada: era I.M.B., um banqueiro grado, famoso por seu garbo, sua simpatia e seu bem vestir, e sobretudo pela pulcritude de seu lar. Tinha no pescoo duas feridas cor de amora como lbios e um talho no ventre que no havia acabado de sangrar. Ainda no comeara a enrijecer. Mais que suas feridas, me impressionou por ter no sexo mirrado pela morte um preservativo que parecia no ter sido usado. Rosa Cabarcas no sabia com quem estava, porque ele tambm tinha o privilgio de entrar pelo porto do pomar. No se descartava a suspeita de que seu par fosse outro homem. A nica coisa que a dona queria de mim era que ajudasse a vestir o cadver. Estava to segura, que me inquietou a idia de que a morte fosse para ela um assunto banal. No h nada mais difcil que vestir um morto, eu disse a ela. Fao isso a torto e a direito, respondeu ela.  fcil se tiver algum que segure para mim. Fiz com que ela lembrasse de um detalhe: Voc imagina que algum vai acreditar num corpo retalhado a navalhadas dentro de uma roupa intacta de cavalheiro ingls?
Tremi por Delgadina. A melhor coisa  que voc mesmo a leve embora, me disse Rosa Cabarcas. Primeiro o morto, disse a ela com a saliva gelada. Ela percebeu e no conseguiu ocultar o desdm: Voc est tremendo! Por ela, respondi, embora fosse apenas meia-verdade. Avise a ela que saia daqui antes que chegue algum. Est bem, disse ela, embora no v acontecer nada com voc, que  jornalista. Nem com voc, respondi com certo rancor. Voc  a nica pessoa do Partido Liberal que manda nesse governo.
A cidade, apreciada pela sua natureza pacfica e sua segurana congnita, arrastava a desgraa de um assassinato escandaloso e atroz a cada ano. Aquele, no. A notcia oficial com manchetes excessivas e parca em detalhes dizia que o jovem banqueiro tinha sido assaltado e morto a navalhadas na estrada de Pradomar por motivos incompreensveis.
No tinha inimigos. O comunicado do governo apontava como supostos assassinos certamente alguns dos refugiados que vinham do interior do pas, e que estavam desatando uma onda de delinqncia comum estranha ao esprito cvico da populao. Nas primeiras horas houve mais de cinqenta detidos.
Acudi escandalizado at o reprter policial, um jornalista tpico dos anos vinte, com bon de viseira de celulide verde e ligas nas mangas, que se gabava de antecipar-se aos fatos. No entanto ele s conhecia uns fios soltos da histria daquele crime, e eu os completei at onde me foi prudente. Assim escrevemos cinco laudas a quatro mos para uma notcia de oito colunas na primeira pgina atribuda ao fantasma eterno das fontes que merecem nosso crdito integral. Mas o Abominvel Homem das Nove  o censor no sofreu um nico tremor de pulso para impor a verso oficial de que havia sido um assalto feito pelos bandoleiros ligados ao Partido Liberal. Eu salvei minha conscincia com um semblante contrito no enterro mais cnico e concorrido do sculo.
Quando voltei para casa naquela noite telefonei para Rosa Cabarcas para averiguar o que havia acontecido com Delgadina, mas ela no atendeu durante quatro dias.
No quinto fui at a casa dela, com os dentes apertados. As portas estavam lacradas, e no pela polcia, mas pela sade pblica. Ningum na vizinhana dava notcia alguma. Sem nenhum indcio de Delgadina, me lancei numa busca alucinada e s vezes ridcula que me deixou ofegante. Passei dias inteiros observando, dos bancos de um parque poeirento onde as crianas brincavam de trepar na esttua desbotada de Simn Bolvar, as jovens ciclistas. Passavam pedalando como gazelas; belas, disponveis, prontas para serem agarradas como galinhas cegas. Quando minha esperana acabou me refugiei na paz dos boleros. Foi como uma beberagem peonhenta: cada palavra era ela. Eu sempre havia precisado de silncio para escrever porque minha mente atendia mais  msica que  escrita. E ento aconteceu o contrrio: s conseguia escrever  sombra dos boleros. Minha vida encheu-se dela. As crnicas que escrevi naquelas duas semanas foram modelos em cdigo para cartas
de amor. O chefe da redao, contrariado com a avalanche de respostas, me pediu que moderasse o amor enquanto pensvamos num jeito de consolar tantos leitores apaixonados.
A falta de sossego acabou com o rigor dos meus dias. Acordava s cinco, mas ficava na penumbra do quarto imaginando Delgadina em sua vida irreal de acordar os irmos, vesti-los para a escola, servir o caf da manh, se houvesse o que pr na mesa, e atravessar a cidade de bicicleta para cumprir a pena de pregar botes. E me perguntei assombrado: Em que pensa uma mulher enquanto prega um boto? Pensava em mim? Ela tambm procurava Rosa Cabarcas para me achar? Passei uma semana inteira sem tirar o macaco de mecnico nem de dia nem de noite, sem tomar banho, sem fazer a barba, sem escovar os dentes, porque o amor me mostrou tarde demais que a gente se arruma para algum, se veste e se perfuma para algum, e eu nunca tinha tido para quem. Damiana achou que eu estava doente quando me encontrou nu na rede s dez da manh. A vi com os olhos turvos da cobia e convidei-a a se revirar nua comigo. Ela, com desprezo, me respondeu:
 E j pensou no que vai fazer se eu disser que  sim?
Ento compreendi at que ponto o sofrimento havia me corrompido. No me reconhecia na minha dor de adolescente. No tornei a sair de casa para no descuidar do telefone.
Escrevia sem deslig-lo, e no primeiro toque pulava em cima dele pensando que poderia ser Rosa Cabarcas. Interrompia a cada tanto o que estivesse fazendo para ligar para ela, e insisti dias inteiros at compreender que aquele telefone no tinha corao.
Ao voltar para casa numa tarde de chuva encontrei o gato enroscado na escadaria do porto. Estava sujo e maltratado, e numa mansido de dar d. O manual me mostrou que estava doente e segui as normas para anim-lo. De repente, enquanto cabeceava um soninho de sesta, me despertou a idia de que o gato poderia me conduzir at a casa de Delgadina. Levei-o num cesto de mercado at o armazm de Rosa Cabarcas, que continuava lacrado e sem indcios de vida, mas o gato se revolveu no balaio com tamanho mpeto que conseguiu escapar, saltou a cerca do pomar e desapareceu no meio das rvores. Bati no porto com o punho fechado, e uma voz militar perguntou sem abrir: Quem vem l? Gente de paz, disse eu para no ficar para trs. Ando buscando a dona. Aqui no existe dona, disse a voz. Pelo menos, abre o porto para que eu apanhe meu gato, insisti. No tem gato nenhum, disse a voz. Perguntei: E o senhor, quem ?
 Ningum  disse a voz.
Havia achado, sempre, que morrer de amor no era outra coisa alm de uma licena potica. Naquela tarde, de regresso para casa outra vez, sem o gato e sem ela, comprovei
que no apenas era possvel, mas que eu mesmo, velho e sem ningum, estava morrendo de amor. E tambm percebi que era vlida a verdade contrria: no trocaria por nada neste mundo as delcias do meu desassossego. Havia perdido mais de quinze anos tratando de traduzir os cantos de Leopardi, e s naquela tarde os senti a fundo:
Ai de mim, se for amor, como atormenta.
Minha entrada no jornal, de macaco e mal-barbeado, despertou certas dvidas sobre meu estado mental. O prdio reformado, com cabines individuais de vidro e luzes no teto, parecia berrio. O clima artificial calado e confortvel convidava a falar em sussurros e a caminhar na ponta dos ps. No vestbulo, como vice-reis mortos, estavam os retratos a leo dos trs diretores vitalcios e as fotografias dos visitantes ilustres. A enorme sala principal estava presidida pela fotografia gigantesca da redao atual, feita na tarde do meu aniversrio. No da marca, do modelo e da cor. No podia ser outra alm da que eu mesmo havia dado de presente a Delgadina.
As testemunhas coincidiram em dizer que a ciclista ferida era muito jovem, alta e magra, e com o cabelo curto e cacheado. Atordoado, peguei o primeiro txi que passou e fiz com, que me levasse ao hospital de Caridade, um velho edifcio de paredes ocre que parecia um crcere encalhado num areal. Precisei de meia hora para entrar, e outra mais para sair ao ptio fragrante das rvores frutferas onde uma mulher atribulada atravessou 0 meu caminho, olhou me nos olhos e exclamou:
 Eu sou quem voc no procura. S ento recordei que era ali que viviam em liberdade os internos mansos do manicmio municipal. Tive que me identifica como jornalista na direo do hospital para que um enfermeiro me levasse ao pavilho de emergncias. No livro de registros estavam os dados: Rosalba Rios, dezesseis anos, sem ofcio conhecido. Diagnstico: comoo cerebral. Prognstico: reservado. Perguntei ao chefe do pavilho de emergncias se podia v-la, com a esperana ntima de que me dissessem que no, mas me levaram encantados pela possibilidade de eu querer escrever sobre o estado de abandono do hospital.
Atravessamos uma ala atopetada de gente e com um forte odor de fenol e os doentes amontoados nas camas. Nos fundos, num quarto solitrio, estendida em uma maca metlica, estava a moa que procurvamos. Tinha o crnio coberto de ataduras, a cara indecifrvel, inchada e arroxeada, mas bastou ver seus ps para saber que no era ela. S ento me ocorreu perguntar a mim mesmo: O que voc teria feito se fosse ela?
Ainda enredado nas teias de aranha da noite tive coragem de ir no dia seguinte  fbrica de camisas onde Rosa Cabarcas havia dito uma vez que a menina trabalhava e pedi ao proprietrio que me mostrasse as instalaes para servir de modelo para um projeto continental das Naes Unidas. Era um libans paquidrmico e taciturno, que nos abriu as portas de seu reino com a iluso de ser um exemplo universal.
Trezentas jovens de blusas brancas com a cruz de cinzas da quarta-feira na testa pregavam botes na vasta nave iluminada. Quando nos viram entrar ergueram-se como colegiais e nos observaram de vis enquanto o gerente explicava suas contribuies para a arte imemorial de pregar botes. Eu examinava as caras de cada uma, com o pavor de descobrir Delgadina vestida e acordada. Mas foi uma delas que me descobriu com o olhar temvel da admirao sem clemncia:
 Diga uma coisa, senhor: no  o senhor que escreve cartas de amor no jornal?
Nunca teria imaginado que uma menina adormecida pudesse causar na gente tamanhos estragos. Escapei da fbrica sem me despedir e sem ao menos pensar se alguma daquelas
virgens de purgatrio era enfim a que eu procurava. Quando sa de l, o nico sentimento que me restava na vida era a vontade de chorar.
Rosa Cabarcas ligou para mim depois de um ms, com uma explicao inacreditvel: tinha tido um merecido descanso em Cartagena de ndias, depois do assassinato do banqueiro. No acreditei,  claro, mas cumprimentei-a pela sua sorte e deixei que se estendesse em sua mentira antes de fazer a ela a pergunta que borbulhava em meu corao:
 E ela?
Rosa Cabarcas fez um longo silncio. Est por a, disse enfim, mas sua voz se fez evasiva:  preciso esperar um tempo. Quanto? No tenho nem idia, eu aviso. Senti que ela ia escapar, e parei-a de chofre: Espera a, me d alguma pista. No tem pista nenhuma, disse ela, e concluiu: Tome cuidado, voc pode se prejudicar, e principalmente prejudicar a menina. Eu no estava para esse tipo de manha. Supliquei nem que fosse uma oportunidade para me aproximar da verdade. Afinal de contas, falei, somos cmplices. Ela no deu nenhum passo a mais. Calma, me disse, a menina est bem e esperando que voc a chame, mas agora mesmo no h nada que se possa fazer, nem vou dizer mais nada. Adeus.
Fiquei com o telefone na mo sem saber por onde continuar, pois tambm a conhecia o suficiente para saber que no conseguiria nada dela se no fosse por bem. Depois do meio-dia dei uma volta furtiva pela sua casa, mais confiado na casualidade que na razo, e encontrei-a ainda fechada e com os lacres da Sade Pblica. Pensei que Rosa Cabarcas devia ter me telefonado de algum outro lugar, talvez de outra cidade, e essa idia me encheu de pressgios turvos. No obstante, s seis da tarde, e quando eu menos esperava, ela me largou pelo telefone meu prprio cdigo:  bom, agora sim.
s dez da noite, tremulo e com os lbios mordidos para no chorar, cheguei carregado de caixas de chocolates suos, torrones e caramelos, e uma cesta de rosas ardentes para cobrir a cama. A porta estava entreaberta, as luzes acesas e no rdio se dilua a meio volume a sonata nmero um para violino e piano de Brahms. Delgadina estava na cama, to radiante e diferente, que me deu trabalho reconhec-la.
Havia crescido, mas no se notava em sua estatura e sim na maturidade intensa que fazia com que parecesse ter dois ou trs anos a mais, e mais nua que nunca. Seus pmulos altos, a pele tostada pelos sis do mar bravio, os lbios finos e o cabelo curto e cacheado infundiam em seu rosto o resplendor andrgino do Apoio de Praxteles.
Mas no havia engano possvel, porque seus seios haviam crescido a ponto de no caberem mais em minha mo, suas cadeiras tinham acabado de se formar e seus ossos tinham ficado mais firmes e harmnicos. Me encantei com aqueles acertos da natureza, mas me atordoei com os artifcios: as pestanas postias, as unhas das mos e dos ps esmaltadas de madreprola, e um perfume de dois tostes o galo que no tinha nada que ver com o amor. No entanto o que me tirou do srio foi a fortuna que ela usava: brincos de ouro com cachos de esmeraldas, um colar de prolas naturais, uma pulseira de ouro com resplendores de diamantes e anis com pedras legtimas em todos os dedos. Na cadeira estava seu traje de noturna com lantejoulas e bordados, e os sapatos de cetim. Um vapor estranho subiu de minhas entranhas.  Puta!  gritei.
Pois o diabo soprou em meu ouvido um pensamento sinistro. E foi assim: na noite do crime Rosa Cabarcas no deve ter tido tempo nem serenidade para prevenir a menina, e a polcia a encontrou no quarto, sozinha, menor de idade e sem libi. Ningum como Rosa Cabarcas para uma situao como aquela: vendeu a virgindade da menina a algum de seus grandes figures a troco de ficar fora do crime. A primeira providncia, claro, foi desaparecer enquanto o escndalo durasse. Que maravilha! Uma lua-de-mel para trs, eles dois na cama, e Rosa Cabarcas num terrao de luxo desfrutando de sua impunidade feliz. Cego de uma fria insensata, fui arrebentando na parede cada coisa do quarto: as lmpadas, o rdio, o ventilador, os espelhos, as jarras, os copos. Fiz tudo isso sem pressa, mas sem pausa, com um grande estropcio e uma embriaguez metdica que me salvou a vida. A menina deu um salto na primeira exploso, mas no me olhou, enroscou-se de costas para mim, e assim permaneceu com espasmos entrecortados at que o cataclismo terminou. As galinhas no quintal e os ces da madrugada aumentaram o escndalo. com a enlouquecedora lucidez da clera tive a inspirao final de botar fogo na casa, justo quando apareceu na porta a figura impassvel de Rosa Cabarcas na sua camisola de dormir. No disse nada. Fez com os olhos o inventrio do desastre e comprovou que a menina estava enroscada sobre si mesma como um caracol e com a cabea escondida entre os braos: apavorada mas intacta.
 Meu Deus!  exclamou Rosa Cabarcas.  O que eu no daria por um amor como este!
Mediu-me de corpo inteiro com um olhar de misericrdia e ordenou: Vamos. Segui-a at a casa, me serviu um copo d'gua em silncio, me fez um sinal para que eu me sentasse na sua frente e me deixou de castigo.
Bem, disse, agora porte-se como um adulto, e me conte: o que est acontecendo?
Contei o que achava que era minha verdade revelada. Rosa Cabarcas escutou-me em silncio, sem assombro, e no fim pareceu iluminada. Que maravilha, disse ela. Sempre disse que os cimes sabem mais que a verdade. E ento me contou sua realidade sem reservas. com efeito, disse, na confuso da noite do crime, tinha esquecido a menina dormindo no quarto. Um de seus clientes, que alm do mais era advogado do morto, repartiu prebendas e subomos a quatro mos, e convidou Rosa Cabarcas para um hotel de repouso em Cartagena de ndias, enquanto se dissipava o escndalo. Creia, disse Rosa Cabarcas, que nesse tempo todo no deixei de pensar um s momento em voc e na menina. Voltei anteontem e a primeira coisa que fiz foi telefonar para voc, mas ningum atendeu. J a menina veio em seguida, mas em to mau estado que dei um banho nela, vesti e mandei ao salo de beleza com a ordem de que a arrumassem como uma rainha. E voc viu: perfeita. A roupa de luxo? So os vestidos que alugo s minhas pupilas mais pobres quando tm de danar com os clientes. As jias? So minhas, disse: Basta toc-las para ver que so diamantes de vidro e tachinhas de lata. Ento, no me aborrea, concluiu: Anda, acorde a menina, pea perdo e tome conta dela de uma vez. Ningum merece ser mais feliz do que vocs. Fiz um esforo sobrenatural para acreditar nela, mas o amor pde mais que a razo. Putas!, disse a ela, atormentado pelo fogo vivo que me abrasava as entranhas.
Isso  o que vocs so!, gritei: Putas de merda! No quero saber mais nada de voc, nem de nenhuma outra bugra no mundo, e menos ainda quero saber dela. Fiz da porta um sinal de adeus para sempre. Rosa Cabarcas no titubeou.
 V com Deus  me disse com um gesto de tristeza, e voltou  vida real.  Seja como for, vou mandar a conta do desastre que voc me aprontou no quarto.
Nos idos de maro encontrei uma frase sinistra que o autor atribui a Jlio Csar:  impossvel no acabar sendo do jeito que os outros acreditam que voc . No pude comprovar sua verdadeira origem na prpria obra de Jlio Csar nem nas obras de seus bigrafos, de Suetnio a Carcopino, mas valeu a pena conhec-la. 
Seu fatalismo aplicado ao curso da minha vida nos meses seguintes foi o que me fazia falta no apenas para escrever esta memria, mas para come-la sem pudores com o amor de Delgadina.
No tinha um instante de sossego, mal conseguia comer e perdi tanto peso que as calas no paravam na cintura. As dores errticas estacionaram nos meus ossos, mudava de nimo sem razo, passava as noites num estado de deslumbramento que no me permitia ler nem escutar msica, e em compensao passava o dia dando cabeadas por causa da sonolncia sonsa que no servia para dormir.
O alvio me caiu do cu. No nibus lotado de Loma Fresca uma vizinha de assento, que eu no havia visto subir, me sussurrou ao ouvido: Voc ainda trepa? Era Casilda Armenta, um velho amor de cada trs por dois que me havia suportado como cliente assduo desde que era uma adolescente altiva. Uma vez aposentada, meio doente e sem um tosto, havia se casado com um hortelo chins que lhe deu nome e apoio, e talvez um pouco de amor. Aos setenta e trs anos tinha o peso de sempre, continuava bela e de gnio forte, e conservava intacto  o desenfado de seu ofcio.
Levou-me at a sua casa, uma horta de chineses numa colina da estrada que dava para o mar. Nos sentamos nas cadeiras de praia do terrao assombreado, entre samambaias e copas de flamboyants, e gaiolas de pssaros dependuradas no beiral. No sop da colina viam-se os horteles chineses com chapus de cone semeando as hortalias debaixo do sol abrasante, e a imensido do mar acinzentado das Bocas de Ceniza com os dois quebra-mares de rochas que canalizam o rio vrias lguas no mar. Enquanto conversvamos vimos entrar pela desembocadura um transatlntico branco e o seguimos calados at ouvir seu bramido de touro lgubre no porto fluvial. Ela suspirou. Voc est vendo s? Em mais de meio sculo  a primeira vez que recebo voc de visita sem ser na minha cama.  que agora somos outros, respondi. Ela prosseguiu sem me ouvir: Cada vez que dizem coisas de voc no rdio, que elogiam voc pelo carinho das pessoas e chamam voc de professor do amor, imagine s, penso que ningum conheceu suas graas e suas manhas to bem como eu. De verdade, disse ela, ningum conseguiria agentar voc melhor que eu.
No resisti mais. Ela sentiu, viu meus olhos midos de lgrimas, e s ento deve ter descoberto que eu j no era o que fui e sustentei seu olhar com uma coragem da qual nunca me achei capaz.  que estou ficando velho, disse a ela. J ficamos, suspirou ela. Acontece que a gente no sente por dentro, mas de fora todo mundo v.
Era impossvel no abrir o corao, e contei a ela a histria completa que me ardia nas entranhas, desde meu primeiro telefonema a Rosa Cabarcas na vspera dos meus noventa anos, at a noite trgica em que destrocei o quarto e no voltei mais. Ela ouviu meu desabafo como se estivesse vivendo tudo aquilo, ruminou muito devagar, e enfim sorriu.
 Faa o que voc quiser, mas no perca essa criana  disse.  No h pior desgraa que morrer sozinho.
Fomos at Puerto Colmbia no trenzinho de brinquedo vagaroso como um cavalo. Almoamos na frente do cais de madeiras carcomidas por onde o mundo inteiro havia entrado no pas antes que as Bocas de Ceniza fossem dragadas. Nos sentamos debaixo de um telhadinho de palha, onde as grandes matronas negras serviam pargos fritos com arroz de coco e fatias de banana verde.
Dormitamos no torpor das duas da tarde e continuamos conversando at que o imenso sol de candeia afundou no mar. A realidade me parecia fantstica. Veja s aonde veio dar a nossa lua-de-mel, caoou ela. Mas continuou, a srio: Hoje olho para trs, vejo a fila de milhares de homens que passaram pelas minhas camas, e daria a alma para ter ficado com um, mesmo que fosse o pior. Graas a Deus, encontrei meu chins a tempo.  como ser casada com o dedo mindinho, mas  s  meu.
Olhou-me nos olhos, mediu minha reao ao que acabava de me contar, e disse: Ento, v correndo procurar essa pobre criatura mesmo que seja verdade o que dizem os seus cimes, no importa, o que voc viveu ningum rouba. Mas, isso sim, sem romanticismos de av. Acorde a menina, fode ela at pelas orelhas com essa pica de burro com que o diabo premiou voc pela sua covardia e mesquinhez. De verdade, terminou ela com a alma: no v morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor.
Minha mo tremia no dia seguinte quando disquei o nmero do telefone. Tanto pela tenso do reencontro com Delgadina, como pela incerteza da forma como Rosa Cabarcas me responderia. Havamos tido uma briga sria pelo exagero com que ela taxou os destroos que fiz no quarto. Tive de vender um dos quadros mais amados da minha me, cujo valor era calculado numa fortuna, mas na hora da verdade no chegou a um dcimo das minhas iluses. Aumentei a soma com o resto de minhas economias e levei tudo a Rosa Cabarcas com uma determinao inapelvel:  pegar ou largar. Foi um ato suicida, porque s por vender um de meus segredos ela teria aniquilado meu bom nome. Mas no resmungou, e ficou com os quadros que havia tomado como cauo na noite da briga. Fui o perdedor absoluto numa s jogada: fiquei sem Delgadina, sem Rosa Cabarcas e sem meus ltimos tostes. No entanto ouvi o toque do telefone uma vez, duas vezes, trs, e enfim ela: E a? Minha voz no saiu. Desliguei. Me joguei na rede, tratando de me serenar com a lrica asctica de Satie, e suei tanto que o tecido da rede ficou empapado. S tive coragem de tornar a ligar no dia seguinte.
 Muito bem, mulher  disse a ela com voz firme.   hoje.
Rosa Cabarcas,  claro, estava alm disso tudo. Ai, meu sbio triste, suspirou com seu esprito invencvel, voc perde dois meses e s volta para pedir iluses.
E me contou que no havia visto Delgadina fazia mais de um ms, que parecia to reposta do susto de meus estragos que nem falou deles ou perguntou por mim, e que estava muito contente com seu novo emprego, mais cmodo e mais bem pago que pregar botes.
Um vagalho de fogo vivo me queimou as entranhas. S pode ser de puta, falei. Rosa me replicou sem pestanejar: No seja idiota, se fosse puta estaria aqui. Onde poderia estar melhor? A rapidez da sua lgica agravou minha dvida: Como posso saber que no est a? Nesse caso, replicou ela, o que mais convm a voc  no saber nada. Ou no? Uma vez mais, a odiei. Ela,  prova de eroses, prometeu rastrear a menina. Sem muitas esperanas, porque o telefone da vizinha para onde ligava continuava cortado e no tinha a menor idia de onde a menina morava. Mas tambm no d para morrer por causa disso, que merda, aguenta a que eu ligo em uma hora.
Foi uma hora de trs dias, mas encontrou a menina disponvel e saudvel. Voltei envergonhado, e a beijei palmo a palmo, como penitncia, da meia-noite at que cantaram
os galos. Um perdo longo que me prometi continuar repetindo para sempre e foi como comear outra vez do princpio. O quarto havia sido desmantelado, e o mau uso havia acabado com tudo que eu tinha posto ali. Ela o havia deixado daquele jeito, e me disse que qualquer melhora eu  que tinha de fazer, pelo que estava devendo.Acontece que minha situao econmica havia chegado ao fundo do poo. O dinheiro das aposentadorias dava para cada vez menos. As poucas coisas vendveis que sobravam na casa  a no ser as jias sagradas de minha me  careciam de valor comercial e nada era suficientemente velho para ser antigo. Em tempos melhores, o governador tinha feito a oferta tentadora de me comprar em bloco os livros dos clssicos gregos, latinos e espanhis para a Biblioteca Estadual, mas no tive corao para vend-los. Depois, com as mudanas polticas e a deteriorao do mundo, ningum do governo pensava nas artes nem nas letras. Cansado de buscar uma soluo decente, botei no bolso as jias que Delgadina tinha devolvido e fui empenh-las num beco sinistro que levava ao mercado pblico, com ar de sbio distrado percorri vrias vezes aquele corticeiro lotado de botequins mortais, livrarias de segunda mo e casas de penhor, mas a dignidade de Florina de Dios trancou meus passos: no me atrevi. Ento decidi vend-las com a fronte erguida na joalheria mais antiga e respeitada. O atendente me fez algumas perguntas enquanto examinava as jias com seu monculo.
Tinha a conduta, o estilo e o pavor de um mdico. Expliquei que eram jias herdadas de minha me. Ele aprovava com um grunhido cada uma das minhas explicaes e no fim
tirou o monculo.
 Sinto muito  disse , mas so cacos de vidro.
Diante da minha surpresa, explicou com uma suave comiserao: Ainda bem que o ouro  ouro e a platina  platina. Toquei meu bolso para assegurar-me de que estava
com as notas fiscais de compra, e disse a ele sem ressbios:
 Pois foram compradas aqui, nesta nobre casa, h mais de cem anos.
Ele no se alterou. Costuma acontecer, disse, que em jias hereditrias desapaream as pedras mais valiosas com a passagem do tempo; substitudas por dissidentes da famlia, ou por joalheiros bandidos, e s quando algum trata de vend-las se descobre a fraude. Mas me permita um segundo, disse, e levou as jias pela porta dos fundos. Aps uns momentos regressou e, sem explicao alguma, fez um sinal para que eu me sentasse na cadeira de espera, e continuou trabalhando.
Examinei a loja. Havia ido com minha me vrias vezes e recordava uma frase corrente: No comente nada com seu pai. De repente me ocorreu uma idia que me arrepiou:
Ser que Rosa Cabarcas e Delgadina, de comum acordo, tinham vendido as pedras legtimas e me devolvido as jias com as pedras falsas?
Estava ardendo em dvidas quando uma secretria me convidou a segui-la pela mesma porta dos fundos, at um escritrio pequeno, com uma longa estante de volumes
grossos. Um beduno colossal levantou-se da escrivaninha do fundo e me apertou a mo tratando-me por voc com uma efuso de velhos amigos. Fizemos o ginsio juntos,me disse,  maneira de cumprimento. Foi fcil me lembrar dele: era o melhor jogador de futebol da escola e campeo dos nossos primeiros bordis. Havia deixado de v-lo em algum momento incerto, e deve ter me achado to decrpito que me confundiu com algum condiscpulo da sua infncia.
Em cima do tampo de vidro que cobria a escrivaninha tinha aberto um dos enormes livros de apontamentos do arquivo onde estava o registro das jias de minha me. Uma relao exata, com datas e detalhes de que ela em pessoa tinha mandado mudar as pedras de duas geraes de belas e dignas Cargamantos, e havia vendido as legtimas naquela mesma loja. Isso tinha acontecido quando o pai do atual proprietrio estava  frente da joalheria, e ele e eu na escola. Mas ele mesmo me tranqilizou: aquelas pequenas artimanhas eram de uso corrente entre as grandes famlias em desgraa, para resolver urgncias de dinheiro sem sacrificar a honra. Diante da realidade crua, preferi conserv-las como lembrana de outra Florina de Dios que jamais conheci.
No comeo de julho senti a distncia real da morte. Meu corao perdeu o compasso e comecei a ver e a sentir por todos os lados os pressgios inequvocos do final. O mais ntido foi num concerto no Belas-Artes. O ar-condicionado havia falhado e a flor e a nata das artes e das letras se cozinhavam em banho-maria no salo abarrotado, mas a magia da msica era um clima celestial. No final, com o Allegretto poo mosso, estremeceu-me a revelao deslumbrante de que estava escutando o ltimo concerto com que o destino me deparava antes de morrer. No senti dor nem medo, mas a emoo arrasadora de ter conseguido viver at ali.
Quando enfim consegui abrir caminho empapado de suor atravs dos abraos e das fotos, me encontrei cara a cara com Ximena Ortiz, como uma deusa de cem anos numa cadeira de rodas. Sua simples presena se impunha em mim como um pecado mortal. Vestia uma tnica de seda cor de marfim, to lustrosa como sua pele, um fio de prolas legtimas de trs voltas, o cabelo cor de madreprola cortado  moda dos anos vinte com uma ponta de asa de gaivota na face, e os grandes olhos amarelos iluminados pela sombra natural das olheiras. Tudo nela contradizia o rumor de que sua mente estava ficando em branco pela eroso imperdovel da memria. Petrificado e sem recursos diante dela, me sobrepus ao vapor de fogo que me subiu pela cara e saudei-a em silncio com uma vnia versalhesca. Ela sorriu feito uma rainha e me agarrou a mo. 
Ento percebi que aquilo tudo tambm era uma jogada do destino, e no a perdi, para arrancar um espinho que me estorvava desde sempre. Sonhei durante anos com esse momento, disse a ela. Ela pareceu no entender. No me diga!, disse. E voc quem ? No soube jamais se na verdade ela havia esquecido ou se foi a vingana final de sua vida.
A certeza de ser mortal, em todo caso, me havia surpreendido pouco antes dos cinqenta anos numa ocasio como aquela, numa noite de carnaval em que danava um tango apache com uma mulher fenomenal de quem nunca vi a cara, mais corpulenta que eu por uns vinte quilos e mais alta uns dois palmos, que no entanto se deixava levar como uma pluma ao vento. Danvamos to apertados que sentia circular seu sangue pelas veias, e me sentia como adormecido de gosto com seu ofegar trabalhoso, quando me sacudiu pela primeira vez e quase me derrubou por terra o frmito da morte. Foi como um orculo brutal ao ouvido: Faa o que voc fizer, neste ano ou em cem, voc estar morto para sempre e jamais. Ela se afastou assustada: O que voc tem? Nada, respondi, tratando de sujeitar meu corao:
 Estou tremendo por sua causa.
Desde ento comecei a medir a vida no pelos anos, mas pelas dcadas.
A dos cinqenta havia sido decisiva porque tomei conscincia de que quase todo mundo era mais moo que eu. A dos sessenta foi a mais intensa pela suspeita de que j no me sobrava tempo para me enganar. A dos setenta foi temvel por uma certa possibilidade de que fosse a ltima. Ainda assim, quando despertei vivo na primeira manh de meus noventa anos na cama feliz de Delgadina, me atravessou a idia complacente de que a vida no fosse algo que transcorre como o rio revolto de Herclito, mas uma ocasio nica de dar a volta na grelha e continuar assando-se do outro lado por noventa anos a mais.
Tornei-me de lgrima fcil. Qualquer sentimento que tivesse algo a ver com a ternura me causava um n na garganta que nem sempre conseguia dominar, e pensei em renunciar ao prazer solitrio de velar o sono de Delgadina, nem tanto pela incerteza da minha morte como pela dor de imagin-la sem mim pelo resto da sua vida. Num daqueles dias incertos fui parar por distrao na mui nobre rua dos Notrios, e me surpreendeu no encontrar nada alm dos escombros do velho hotel para encontros fugazes onde fui iniciado  fora nas artes do amor pouco antes dos meus doze anos. Havia sido uma manso de antigos armadores, esplndida como poucas na cidade, com colunas cobertas de alabastro e frisos de ouropis, ao redor de um ptio interno com uma cpula de vidros de sete cores que irradiava um resplendor de invernadouro. No andar trreo, com um portal gtico sobre a rua, estiveram por mais de um sculo os cartrios e tabelies coloniais onde trabalhou, prosperou e se arruinou meu pai em uma vida inteira de sonhos fantsticos. As famlias histricas abandonaram pouco a pouco os andares superiores, que acabaram sendo ocupados por uma legio de damas noturnas em desgraa que subiam e desciam at o amanhecer com os clientes apanhados por um peso e meio nos botequins do vizinho porto fluvial. Aos meus doze anos, ainda com minhas calas curtas e minhas botinhas da escola primria, no consegui resistir  tentao de conhecer os andares superiores enquanto meu pai se debatia numa de suas reunies interminveis, e deparei com um espetculo celestial. As mulheres que vendiam barato seus corpos at o amanhecer se moviam pela casa desde as onze da manh, quando a cancula do vitral j era insuportvel, e tinham que fazer sua vida domstica andando peladas pela casa inteira enquanto comentavam aos gritos suas aventuras da noite. Fiquei aterrorizado. A nica coisa que me ocorreu foi escapar por onde havia chegado, quando uma das peladas de carnes macias cheirando a sabo silvestre me abraou pelas costas e me levou no ar at seu cubculo de papelo sem que eu conseguisse v-la no meio da gritaria e dos aplausos das inquilinas nuas. Ela me jogou de barriga para cima em sua cama para quatro, tirou as minhas calas com uma manobra magistral e se encavalou em cima de mim, mas o terror gelado que me empapava o corpo me impediu de receb-la como um homem. Naquela noite, desvelado na cama da minha casa pela vergonha do ataque, no consegui dormir mais do que uma hora, com vontade de tornar a v-la. Na manh seguinte, enquanto os tresnoitados dormiam, subi tremendo at o seu cubculo, e a despertei chorando aos gritos, com um amor enlouquecido que durou at que foi levado sem misericrdia pelo vendaval da vida real. 
Ela se chamava Castorina e era a rainha da casa.
Os cubculos do hotel custavam um peso para os amores de passagem, mas muito poucos de ns sabamos que custavam a mesma coisa para vinte e quatro horas. Alm do mais, Castorina me apresentou ao seu mundo de maldio e pecado, no qual convidavam os clientes pobres para seus cafs da manh de gala, emprestavam sabonete para eles, cuidavam de suas dores de dente e, em casos de urgncia maior, lhes davam um amor por misericrdia.
Mas nas tardes da minha ltima velhice ningum mais se lembrava da imortal Castorina, morta sabe-se l quando, que havia subido das esquinas miserveis do cais fluvial at o trono sagrado de cafetina-mor, com uma venda de pirata no olho perdido numa briga de botequim. Seu ltimo macho fixo, um negro feliz de Camagiiey que era chamado de Jonas, o Galeote, havia sido um trompetista dos grandes em Havana at perder o sorriso completo numa catstrofe de trens.
Ao sair daquela visita amarga senti no corao uma fisgada que no consegui aliviar durante trs dias com todo tipo de poes caseiras. O mdico a quem procurei de emergncia, membro de uma estirpe de insignes, era neto do que me examinou aos meus quarenta e dois anos, e me assustei ao ver como eram parecidos, pois estava to envelhecido como seu av aos setenta, por uma calvcie prematura, uns culos de mope irreversvel e uma tristeza inconsolvel. Fez em mim um exame minucioso de corpo inteiro com uma concentrao de ourives. Auscultou meu peito e minhas costas, examinou minha presso arterial, os reflexos do joelho, o fundo do olho, a cor da plpebra inferior. Nas pausas, enquanto eu mudava de posio na cama de exame, ele me fazia perguntas to vagas e rpidas que mal me davam tempo de pensar nas respostas. Aps uma hora me olhou com um sorriso feliz. Bem, disse ele, acho que no tenho nada a fazer pelo senhor. O que isso quer dizer? 
Ora, que seu estado  o melhor possvel na sua idade. Que interessante, respondi, seu av me disse a mesma coisa quando eu tinha quarenta e dois anos, como se o tempo no passasse. O senhor sempre encontrar algum que dir a mesma coisa, disse, porque sempre ter uma idade. Eu, provocando-o para uma sentena assustadora, disse a ele: A nica definitiva  a morte. Sim, disse ele, mas no  fcil chegar a ela num estado to bom como o do senhor. Sinto muito no poder agrad-lo. Eram lembranas nobres, mas na vspera do dia 29 de agosto senti o peso imenso do sculo que me esperava impassvel quando subi com passos de ferro as escadas da minha casa. Ento tornei a ver uma vez mais Florina de Dios, minha me, na minha cama que havia sido sua at sua morte, e me deu a mesma bno da ltima vez que a vi, duas horas antes de morrer.
Transtornado pela comoo entendi aquilo como o anncio final e telefonei para Rosa Cabarcas para que chamasse minha menina aquela mesma noite, em previso de que no se cumprisse minha iluso de sobreviver at o ltimo respiro de meus noventa anos. Tornei a telefonar s oito, e uma vez mais repetiu que no era possvel. Tem de ser, a qualquer preo, gritei aterrorizado. Desligou sem se despedir, mas quinze minutos depois tornou a ligar:
 Muito bem, aqui est ela.
Cheguei s dez e vinte da noite e dei a Rosa Cabarcas as ltimas cartas da minha vida, com minhas disposies sobre a menina depois de meu final terrvel. Ela pensou que eu tinha ficado impressionado com o esfaqueado e me disse com ar de deboche: Se voc vai morrer, que no seja aqui, nem pense nisso. Mas eu disse a ela: Diga que fui atropelado pelo trem de Puerto Colmbia, aquele pobre ferro-velho que d pena e  incapaz de matar algum.
Preparado naquela noite para tudo, me deitei de barriga para cima  espera da dor final no primeiro instante de meus noventa e um anos. Ouvi sinos distantes, senti a fragrncia da alma de Delgadina dormindo de lado, ouvi um grito no horizonte, soluos de algum que talvez tivesse morrido um sculo antes naquela mesma alcova.
Ento apaguei a luz com o ltimo suspiro, entrelacei meus dedos com os dela para lev-la pela mo e contei as doze badaladas da meia-noite com minhas doze lgrimas finais, at que os galos comearam a cantar, e em seguida o repicar dos sinos de glria, os foguetes de festa que celebravam o jbilo de haver sobrevivido so e salvo aos meus noventa anos.
Minhas primeiras palavras foram para Rosa Cabarcas: Compro a casa inteira, com o armazm e o pomar. Ela me disse: Faamos uma aposta de velhos: quem sobreviver fica com tudo que  do outro, assinado no tabelio. No, porque se eu morrer, tudo vai para ela. D na mesma, disse Rosa Cabarcas, eu tomo conta da menina e depois deixo tudo para ela, o seu e o meu; no tenho mais ningum neste mundo. Enquanto isso, vamos reformar o seu quarto com bons servios, ar-condicionado, e seus livros e sua msica.
 Voc acha que ela vai concordar?
 Ai, meu sbio triste, est bem que voc esteja velho, mas no idiota  disse Rosa Cabarcas morrendo de rir.  Essa pobre criatura est zonza de amor por voc.
Sa radiante para a rua e pela primeira vez me reconheci no horizonte remoto do meu primeiro sculo. Minha casa, calada e em ordem s seis e quinze, comeava a gozar das cores de uma aurora feliz. Damiana cantava a toda na cozinha, o gato redivivo enroscou a cauda em meus tornozelos e continuou caminhando comigo at a minha mesa de escrever. Estava organizando meus papis murchos, o tinteiro, a pena de ganso, quando o sol explodiu entre as amendoeiras do parque e o barco fluvial dos correios, atrasado uma semana por causa da seca, entrou bramando no canal do porto. Era enfim vida real, com meu corao a salvo, e condenado a morrer de bom amor na agonia feliz de qualquer dia depois dos meus cem anos.
Maio de 2004
Este livro foi composto na tipologia Minion em corpo 12,5/19 e impresso em papel off-white 90g/m2 no Sistema Cameron da Diviso Grfica da Distribuidora Record.
Projeto de capa  Luz de Ia Mora fotografia de capa  Luis Miguel! Palomarcs ;
